Textos

MÚSICA CLÁSSICA SOB OS PINHEIROS DE CAMPOS DO JORDÃO

TEXTO Josias Teófilo

Fotos Rodrigo Rosenthal

Era o mês de julho passado e Campos do Jordão, na época mais fria do ano, recebia pelo 45o ano consecutivo (quase um terço do tempo de existência da cidade, que tem 140 anos), o festival de inverno que coloca a simpática cidade da Serra da Mantiqueira no mapa internacional da música de concerto. Pelas ruas da cidade de quase 50 mil habitantes circulam músicos de diversas nacionalidades portando seus instrumentos, falando diferentes línguas – predominantemente o inglês – e freqüentando os master classes, recitais e concertos. Estes se dividem entre o Espaço Cultural Dr. Além, a Igreja Matriz de Santa Teresinha e a Praça de Capivari – no centro da cidade –, mas também a Capela do Palácio do Governador, o Castelo de Campos e o Auditório Cláudio Santoro, principal palco do festival, com lotação de mais de mil lugares.

Os números do festival impressionam: por seus palcos passaram mais de três mil artistas em cerca de 68 concertos, incluindo obras para coral, orquestras, bandas, grupos de câmara e recitais solo. O público que chega à cidade repleta de pinheiros, vindo predominantemente de São Paulo capital, torna o trânsito caótico em alguns horários e lota os hotéis e pousadas da cidade. Esse aspecto turístico do festival, entretanto, torna-se menos relevante se comparado ao caráter educativo, de altíssimo nível, que coloca jovens instrumentistas e compositores em contato com músicos profissionais do primeiro escalão mundial, promovendo uma atmosfera de excelência que transcende barreiras nacionais.

História

Para entender o festival em seu tamanho e importância atual é preciso tratar de uma personalidade-chave da vida musical brasileira da segunda metade do século 20: o maestro Eleazar de Carvalho, que concebeu o evento anual nos seus moldes gerais. Cearence de Iguatu, estudou música na Marinha, onde tocou tuba em bandas militares. “Observei que a comida servida às crianças que tocavam na banda era melhor. Apresente-me embora não tocasse qualquer instrumento. Sou músico por gulodice”, assim explicava sua motivação inicial pela música. Estudou regência com o importante compositor brasileiro Francisco Mignone na Escola de Música do Rio de Janeiro. Inspirados pela passagem do maestro italiano Arturo Toscanini com a Orquestra da NBC, Eleazar e um grupo de músicos criaram a Orquestra Sinfônica Brasileira, que veio a ser regida pelo maestro húngaro Szenkar, tendo Eleazar como assistente. Foi aos Estados Unidos com o objetivo de reger alguma das três principais orquestras do país (Boston, Filadélfia e Nova York) e, apesar do fracasso inicial na Orquestra da Filadélfia, dirigiu as principais orquestras americanas e européias da época, entre elas a filarmônica de Berlin, Viena, Nova York, as sinfônicas de Boston, Londres, Paris. Começou como assistente do maestro russo Koussewitzky, que tinha ninguém menos que Leonard Bernstein como assistente na Sinfônica de Boston.

Mas a carreira de Eleazar não se resumiu à atuação frente as orquestras, foi também importantíssimo professor de regência. Entre os seus alunos estão alguns dos principais nomes das regência mundial do final do século XX como, Seiji Osawa, Zubin Mehta, Charles Dutoit, Claudio Abbado (lendário maestro da Filarmônica de Berlin, falecido em 2014).

Da sua experiência dirigindo o Festival de Tanglewood, festival de verão da Sinfônica de Boston, ele tirou o molde para o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que já existia mas com ele tomou o aspecto que tem hoje, voltado para o ensino e a prática orquestral. Num depoimento à TV Cultura na época, ele disse: “[A ideia é] fazer 250 jovens conviverem ali durante um mês ouvindo os profissionais da música, vivendo naquele ambiente. Me parece que depois desse festival, depois de se assistir as grandes obras interpretadas pelos grandes músicos, depois de um curso intensivo com os grandes nomes, que fizeram história, os nossos jovens guardarão um pouco daquilo que eles levaram anos para aprender”. Seu lema era: “Mais escolas para mais orquestras”. Como efeito, por Campos do Jordão passariam várias gerações de músicos de orquestra, muitos deles hoje destacados internacionalmente e/ou integrantes das várias orquestras profissionais que o estado de São Paulo possui. A mais importante delas é a Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, recriada por Eleazar de Carvalho com o objetivo fazer uma grande orquestra internacional no Brasil. Seu objetivo, porém, nunca foi verdadeiramente realizado durante a sua vida, nem mesmo o de conseguir uma casa para a Osesp, que ensaiava e se apresentava em diversos espaços distintos. O que se diz é que no velório de Eleazar de Carvalho, realizado no Theatro Municipal de São Paulo, foi grande a comoção por ter o maestro morrido sem realizar o sonho de ter uma casa para a sua orquestra. Foi nesse contexto que o então governador Mário Covas investiu na construção da Sala São Paulo, casa da Osesp, e na reformulação da orquestra realizada pelo maestro John Neschling – hoje à frente do Theatro Municipal de São Paulo. Atualmente, a Fundação Osesp administra também o Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Orquestra dos bolsistas

A abertura da 45a edição do festival teve a Nona Sinfonia de Beethoven tocada pela Osesp com os Coros da Osesp e Acadêmico da Osesp, o barítono Paulo Szot e solistas convidados. A regência ficou a cargo da maestrina americana Marin Alsop, que se divide entre os cargos de regente titular da Osesp e diretora musical da Orquestra Sinfônica de Baltimore e que fez a consultoria artística do festival. Apesar das várias orquestras importantes que passaram pelo festival, como a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Filarmônica de Minas Gerais, que tem aplicado com êxito o modelo de gestão da Osesp e vem num crescendo de qualidade musical, e dos grandes solistas e grupos de câmara que se apresentaram, as atenções do estavam voltadas para a Orquestra do Festival, formada por bolsistas. É nela que tocam os músicos selecionados a partir de um edital divulgado no final do ano passado e onde constava o repertório da seleção para a orquestra. Segundo o coordenador artístico-pedagógico do festival, Fábio Zanon, foram mais de mil inscrições de músicos de orquestra. “A parte educativa do festival está fortemente associada à ideia de prática orquestral. É um festival que foi modelado para criar uma nova geração de músicos orquestrais do pais. Já está na 45o edição e eu fico muito contente em ver que de um ano para o outro existe uma evolução da própria atitude dos bolsistas”, disse ele. É no Castelo de Campos que se concentram as atividades pedagógicas do festival. Lá foram feitas as aulas dos 145 bolsistas distribuídos em classes de 16 instrumentos, composição e regência. Na classe de regência os professores foram Marin Alsop, que regeu o primeiro concerto da Orquestra do Festival, e Giancarlo Guerrero, regente da Sinfônica de Nashville. “Ao mesmo tempo em que Marin Alsop é mais técnica, Guerrero é um cara enérgico, divertido, sabe despertar a imaginação das pessoas”, observa Fábio Zanon. Os bolsistas de regência subiram ao pódio para reger a Orquestra Sinfônica de São José dos Campos. Já os de composição tiveram aula com a compositora convidada do festival, a inglesa Anna Clyne. Obras tanto da compositora convidada como dos alunos foram apresentadas ao longo do festival. Já no primeiro concerto da Orquestra do Festival foi apresentada Masquerade, obra composta em 2013 pela compositora convidada. O repertório do concerto de fato impressiona pela dificuldade para uma orquestra jovem: além da peça de Anna Clyne, foi apresentada a Rapsódia para um tema de Paganini, de Serguei Rachmaninof, tendo Boris Gilburg ao piano solista, e, principalmente, a Sinfonia no 5 de Dmitri Shostakovich, obra de peso que ficou conhecida sobretudo pela interpretação de Leonard Bernstein, antigo professor de Marin Alsop, que regeu o concerto. “Tocar a Quinta Sinfonia de Shostakovich foi um grande desafio pois não é uma obra normalmente tocada por uma orquestra de jovens”, afirma ainda Fábio Zanon. Mas são realmente os desafios que tornam o festival interessante. Thierry de Lucas Neves, 18 anos, natural de Goiânia, é spalla da Orquestra do Festival e veio pela terceira vez a Campos do Jordão como bolsista. Ele conta como o festival mudou a sua vida: “Eu tive aulas no festival com o violinista Pinchas Zuckerman, um grande gênio do violino, e ele me mandou estudar com Daniel Guedes no Rio de Janeiro. Hoje eu moro no Rio. Esse ano ganhei bolsa para participar de uma semana de música de câmara da Julliard School em Nova York”. Foi indicado ao posto de spalla pelos professores, que observaram os alunos que se destacaram durante as aulas. A argentina Liz Malén Cardoso, 28 anos, toca harpa há 17 anos e veio pela segunda vez ao festival. “Os professores são muito bons e ter a possibilidade de tocar em uma orquestra em que todos os músicos toquem bem é realmente incrível”, disse ela. Relato semelhante fez a clarinetista irladesa Leonie Bluett, 24 anos: “É a minha primeira vez no Brasil e eu não sabia o que esperar. É lindo tocar com uma regente famosa como Marin Alsop. Fiz muitos contatos importantes no festival”. Todos eles tocavam no concerto de encerramento da parte pedagógica do festival, realizado no Auditório Claudio Santoro. O repertório: Sinfonia no 1 de Beethoven, Sinfonia Tropical de Mignone e Os Pinheiros de Roma, de Respighi. No ensaio geral, o enérgico Giancarlo Guerrero alternava gestos entusiasmados e esporros nos músicos, cobrava atenção e compromisso. No concerto do dia 26 de julho, a orquestra mostrou uma bela sonoridade mesmo nos momentos mais difíceis. Poucas orquestras no Brasil tem desempenho desse nível, mesmo as profissionais. A apoteose veio com Os pinheiros de Roma, poema sinfônico que descreve as árvores características da região romana. No último movimento da peça os metais da orquestra, espalhados pelo auditório, provocaram uma funda impressão na platéia, que ovacionou a orquestra por longos minutos. Nos bastidores, se falava que essa foi a melhor orquestra de bolsistas da história do festival. O lema do mestre Eleazar de Carvalho, “mais escolas para mais orquestras”, continua dando frutos exatamente nos moldes que ele concebeu.

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