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JUSTA HOMENAGEM A UMA PEÇA IRREQUIETA

Maestro Marlos Nobre compõe obra que celebra o centenário de lançamento de A sagração da primeira, marco da música moderna, composta para ser dançada Por Josias Teófilo

Publicado na revista Continente de abril de 2013

A temporada de 2013 da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comemora a efeméride musical mais relevante do ano: os 100 anos de A sagração da primavera, de Igor Stravinski, obra chave da modernidade na música. O título da temporada, concebida pelo diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, é Sagrações da Primavera e se relaciona à obra de Stravinski de formas distintas, inclusive com a própria obra tocada na versão para dois pianos e na sua original. Uma delas é a encomenda de uma homenagem musical à Sagração, feita ao compositor pernambucano Marlos Nobre. Daí surgiu o Sacre du sacre opus 118, peça de 16 minutos para orquestra sinfônica, cuja estreia mundial se deu no último dia 7 de março, na Sala São Paulo, casa da orquestra. A encomenda da Osesp – que é considerada uma das principais orquestras da América Latina – a Marlos Nobre demonstra, antes de tudo, a vitalidade deste compositor, que chegar à 118ª obra, o Sacre du sacre é opus 118, com 74 anos completados recentemente, “compondo como nunca”, como ele diz. A encomenda revela, também, a afinidade entre a obra do compositor pernambucano, nascido na Rua de São João, bairro de São José, e a do russo Igor Stravinski. Para entender essa afinidade é preciso, antes, entender A sagração da primavera como peça-chave da música do século 20, cuja força repercutiu nos anos de formação de Marlos Nobre como compositor. A SAGRAÇÃO O famoso escândalo da estreia da peça de Stravinski se deu no dia 29 de maio de 1913, no Théâtre des Champs-Elysées, em Paris. A sagração da primavera (Le sacre du printemps) foi o terceiro balé encomendado pela companhia Ballet Russe, de Serguéi Diáguilev, a Igor Stravinski, logo depois de O pássaro de fogo (1910) e Petrúschka (1911), e ambas tiveram grande sucesso. Como Stravinski descreve a Robert Craft (Conversas com Igor Stravinski, editora Perspectiva), as respostas ruidosas da plateia à terceira montagem começaram logo no início da peça – vaias e assobios. Quando os ruídos mais fortes principiaram, Stravinski saiu da sua cadeira na plateia e foi aos bastidores ficar ao lado de Nijinski, o coreógrafo. “Ainda me parece quase incrível que tenha podido, efetivamente, levar a orquestra até o fim”, disse Stravinski, se referindo ao maestro Pierre Monteux, que regeu naquela noite. O público parisiense ficou chocado com a pontuação fortemente rítmica, o cenário primitivo, as danças violentas representando ritos de fertilidade, e reagiu brutalmente. Além disso, a música apresentava dissonâncias, polirritmias e uso bastante original dos metais e dos sopros, especialmente o fagote, cujo solo toca a melodia mais característica. Depois do ocorrido sentiram-se todos, inclusive Stravinski, “excitados, zangados, desgostosos e…felizes”. De fato, o escândalo deu tremenda publicidade à obra, a ponto de Diáguilev dizer: “Era exatamente o que eu queria”. Curiosamente, a obra mais famosa de Igor Stravinski é programática, sendo boa parte da sua produção posterior radicalmente antiprogramática, ou seja, dissociada de ideias e imagens extramusicais. Com efeito, a música de Stravinski se opõe fortemente ao romantismo na música, especialmente a Richard Wagner. Em seguida à Sagração, o compositor passou por várias fases: escreveu música chamada de “neoclássica”, como Jeu de cartes, interessou-se pelo serialismo e, motivado pela sua descoberta da religião católica em 1925, compôs música sacra, parte importante do seu repertório – como a Sinfonia dos Salmos, a Missa, o Canctum sacrum, os Threni. Ainda na entrevista a Robert Craft em 1959, perguntado se seria preciso ser crente para compor formas musicais sacras, ele respondeu: “Evidentemente. E não um crente apenas em ‘figuras simbólicas’, mas na Pessoa da Senhor, na Pessoa do Diabo, e nos Milagres da Igreja”. Entretanto, a Sagração da primavera, obra profundamente pagã, permaneceu sendo sua composição mais influente e conhecida do século 20, exatamente pelo uso tão original de dissonâncias, da polirritmia, do predomínio do ritmo sobre a melodia e a harmonia. MARLOS NOBRE Nascido no Bairro de São José numa terça-feira de Carnaval, em 1939, Marlos Nobre é, na atualidade, o compositor brasileiro de música de concerto mais premiado internacionalmente. Ganhou, por exemplo, o VI Prêmio Tomás Luís de Victoria, na Espanha, um dos mais importantes do mundo da música de concerto. No ato da entrega da premiação, o júri destacou “a transcendência e projeção internacional de sua obra, assim como a originalidade do seu pensamento estético”. A Continente entrevistou Marlos Nobre no Hotel Tivoli, em São Paulo, dois dias antes da estreia mundial da sua obra pela Osesp. A primeira pergunta era, naturalmente, sobre a relação da obra de Marlos Nobre com A sagração. “A descoberta destsas obras – Petrushka, O pássaro de fogo e A Sagração da primavera – foi o maior impacto musical que recebi e praticamente me fizeram decidir pela composição. Tenho certeza que, ao descobrir Stravinski e sua música, descobri a mim mesmo”. Com uma robusta cabeleira branca que lembra os compositores do passado – Bach, Haydn – Nobre sentou-se numa mesa espalhada no hall de vidro do hotel, circulado por um exuberante jardim que remetia, curiosamente, à primavera (louvada no ritual que é a obra de Stravinski), assim como a imagem do compositor e sua partitura espelhada na mesa pareciam remeter ao caráter do Sacre du sacre, de espelhar uma obra do passado. Como foi a descoberta da vanguarda da música no Recife – que nunca foi um grande centro musical, em se tratando de música de concerto – parecia uma questão importante de sua formação. “Naquela época (estou falando de 1956/57), no Recife, a Orquestra Sinfônica de Recife não podia apresentar essas peças. Mas, por um feliz acaso, me tornei amigo de um violista da orquestra, Cabral de Lima, que tinha a mais completa discoteca de música moderna do Brasil! Na sua casa, ouvi pela primeira vez, fascinado, Debussy, Ravel, Prokofiev, Bartok, Hindemith, Stravinski, Schoenberg, Berg, Webern, Messiaen, Stockhausen. O homem tinha tudo!”, recordou Marlos. Além disso, Cabral de Lima se correspondia com ninguém menos que Olivier Messiaen, autor do Quatour pour la fin du temps. O mais curioso do relato de Marlos Nobre ainda estava por vir: “Os dois principais elementos que tanto chocaram o público parisiense naquela época, a polirritmia, ou seja, a confluência de diferentes métricas no ritmo, e o uso tão saliente dos metais, eu já conhecia do maracatu e do frevo, desde criança”. De modo que foi a percussão que o levou a Stravinski. Esses dois interesses, a música popular e a de concerto universal, fundiram-se na obra de Marlos Nobre. Inquirido sobre se o mito está no Sacre du sacre assim como na obra de Stravinski, que compôs sua obra a partir da mitologia eslava, pagã, o compositor afirmou: “O mito existe sim, também neste meu Sacre du sacre e esse mito pagão, popular, forte, essencial, que vem do maracatu, transformei em minha mente tal como Stravinski fez com a mitologia russa-eslava. As origens populares do Brasil e da Rússia são, a meu ver, muito similares. Tal como a Rússia, o Brasil é um país imenso, onde há diversas formas de manifestações populares. A riqueza da Rússia e do Brasil na música vem portanto da assimilação dessas formas profundas do povo russo, misturados com a lição da música do Ocidente”. ESTREIA MUNDIAL A Sala São Paulo faz parte da Estação Júlio Prestes, centro de São Paulo, e guarda a dignidade eclética do prédio que a envolve. O seu interior, de acústica impecável, tem um tom amarelo-alaranjado – se destacam as imensas pilastras coríntias e o teto, com placas que se movem de acordo com a necessidade acústica da apresentação. O concerto foi regido pela maestro associado da orquestra, Celso Antunes. Antes da apresentação, era possível ver, no palco, os experientes músicos do naipe de percussão da orquestra ensaiando suas respectivas partes efusivamente. O que indica, claramente, repertório difícil pela frente – e não ensaiavam as outras peças do repertório, mas exatamente o Sacre du sacre. O repertório parecia incorporar a fala de Marlos Nobre sobre a riqueza das formas populares do Brasil e da Rússia. A apresentação começa com o Sacre du sacre. Em seguida, o Choro para piano e orquestra, de Camargo Guarnieri, inspirado nos Choros de Villa-Lobos; passa ao Concerto No 2 para piano, de Dimitri Shostakovich – a obra de Guarnieri como a Shostakovich foram tocados pela excelente pianista Cristina Ortiz – e, por fim, a Sinfonia No 2, de Alexander Borodin. A primeira obra do concerto foi também a mais impactante: o Sacre du sacre fez, de fato, a Sala São Paulo tremer – assim como se descrevem shows de rock. Marlos Nobre utilizou todos – ou quase todos – os instrumentos de percussão usados numa orquestra, inclusive o sino, cita métricas, ritmos e o famoso solo de fagote da Sagração. Como não poderia deixar de ser, usa de dissonâncias e radicaliza a polirritmia usada por Stravinski. Sim, é possível ouvir no Sacre du sacre a força rítmica do maracatu, não por qualquer referência musical direta, mas por algo que vem de dentro e cuja força perpassa toda a obra. A escrita sinfônica do Sacre du sacre é admirável e chocante, capaz de produzir, como produziu, uma funda impressão no público – de fato, só uma obra visceral poderia homenagear dignamente A sagração da primavera.

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