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GRÉCIA: UMA EXPERIÊNCIA MÍTICO-RELIGIOSA

Texto e foto por Josias Teófilo, publicado na revista Continente em outubro de 2011.

É o mar que causa a primeira forte impressão ao viajante que chega à Grécia. Com seu profundo azul marinho e sua relação sempre dramática com o litoral montanhoso, acidentado e recortado, e com as milhares de ilhas que pontuam a superfície do mar, de tamanhos diversos: algumas minúsculas, outras de grande extensão. Cerca de 170 delas são habitadas, menor ainda o número das que são visitadas nas rotas turísticas.

O Mar Egeu – que atualmente divide a Grécia e a Turquia, e, em diversos graus, Ocidente e Oriente, cristianismo e islamismo –  é a porta de entrada para quem pretende conhecer o que restou da civilização que originou o que conhecemos como mundo ocidental. Um lugar que esteve sempre sob influência do oriente próximo, inclusive em épocas nas quais a geopolítica que divide a Terra nas polaridades tal como a conhecemos hoje era tênue ou inexistia.

No Novo Museu da Acrópole – inaugurado em 2009, em Atenas – vemos a “evolução” da arte grega, que passa pelo arcaísmo criado sob influência oriental e chega à época de Péricles, o governante grego que iniciou o Partenon e o período áureo da civilização helênica, da qual participou Fídias, o escultor máximo da antiguidade. Péricles o teve à disposição para pôr em prática o ideal de embelezamento da cidade-estado, Atenas.

Fídias, esse mestre da forma, que Rodin identificava como a mais alta expressão do gênio grego, foi o responsável pelo projeto do Partenon e de um sem-número de obras esculturais que influenciaram diretamente tanto a arte romana como o renascimento italiano. Seu nome, entretanto, se não é desconhecido, é, no mínimo, pouco falado nos nossos dias, muito menos se comparado ao igualmente escultor e arquiteto Michelangelo Buonarroti.

Essa sobreposição do gênio renascentista ao mestre da antiguidade (que pode se explicar também pela integridade das peças do italiano, em oposição à precariedade das obras que sobraram do grego) nos faz refletir sobre como o Renascimento ainda está vivo no nosso imaginário coletivo, e como a antiguidade se torna cada vez mais distante. E, além disso, em como a concepção estética do Renascimento contagia nossa visão da antiguidade clássica: constantemente vemos Botticelli ilustrando a mitologia grega, e Rafael, os filósofos helênicos. São muitas as camadas que filtram nossa visão dessa época que, entretanto, fala tanto de nós mesmos: “Todos somos gregos”, dizia Shelley.

A experiência de entrar em contato direto com as ruínas arquitetônicas e com a atmosfera natural em Atenas, todavia, pode motivar a imaginação a uma descoberta que vai muito além do que se pré-concebe sobre a civilização grega e o helenismo. O papel da imaginação nessa descoberta é preponderante, já que o que sobrou em pé é muito pouco – diferentemente de outras capitais europeias, como Paris ou Roma, onde é possível ver edifícios e templos completos, e a imaginação é desencadeada pela simples observação.

Na Acrópole em Atenas, de onde podemos ver toda a cidade contemporânea pontuada por sítios arqueológicos e pelos domos das igrejas ortodoxas, está o emblemático Partenon, tal como ele ficou depois de ser explodido, em 1687, pelo canhão veneziano que detonou a pólvora turca lá depositada. Esse templo pagão, dedicado à deusa que deu nome à cidade, Atena, tornou-se, sob bizâncio, uma igreja dedicada à Virgem Maria (Pathena Maria) e, em seguida, até um templo muçulmano, sob o Império Otomano. Foi quando o Lord Elgin, embaixador britânico no Império Otomano, levou para a Inglaterra as esculturas de Fídias que compunham o friso do Partenon, país onde até hoje ainda se encontram. A construção do Novo Museu da Acrópole, que custou 130 milhões de euros, representa antiga reivindicação da Grécia pela devolução dessas obras, já que os ingleses negavam o pedido sob a alegação de que o país não tinha um museu à altura para recebê-las.

Bem em frente ao moderníssimo prédio sobre pilotis do Novo Museu da Acrópole, projetado pelo franco-suíço Bernard Tschumi, vemos o Teatro de Dionísio, onde muitas das 123 peças do longevo Sófocles foram vistas, assim como as de Ésquilo e Eurípedes – ali onde se poderia dizer que nasceu o teatro.  De novo, a imaginação do viajante se põe a recriar o espaço onde foram feitas as obras universais da trilogia tebana de Sófocles – Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona – naquele teatro ao ar livre, que tinha a acústica impecável, em que os gregos punham seus dilemas coletivos em catarse.

O curioso é que esses temas da tragédia grega, nascidos no teatro, suscitaram séculos de discussões não só artísticas, como políticas, científicas e filosóficas. “Toda história ocidental é o eco do grito de Antígona”, frase atribuída a Hegel, mostra o universalismo dessas obras que desconcertaram Marx por conservarem sua força muito tempo depois de dissolvidos os conflitos econômico-sociais em que foram escritas.

E nem é preciso ir tão longe para reconhecer a universalidade do teatro grego: a própria vida de Sócrates incorporou o problema da tragédia – a oposição do indivíduo em relação às leis estabelecidas da coletividade, que se volta contra este fazendo-o de bode expiatório.

O viajante que caminha pelas ruínas antigas pode refletir, a partir dos relatos dos guias ou dos próprios estudos, sobre como, para além da tragédia, da filosofia e dos mitos, a civilização helênica nos leva ao âmago de um outro fenômeno substancial ao ocidente: o Cristianismo.

OS CRISTÃOS

Foi em Atenas que o apóstolo Paulo discursou para a plateia culta da cidade, incluindo filósofos estoicos e epicuristas, naquele momento que Werner Jaeger considera decisivo para a o futuro do cristianismo como religião mundial. No seu livro Cristianismo primitivo e paideia grega, o humanista alemão nos mostra como apóstolos e apologistas cristãos se imbuíram da tradição grega, inclusive de paideia (termo que significava, inicialmente, somente a “criação de meninos”, mas que tornou-se o ideal da educação grega clássica), para se dirigir aos judeus helenizados e aos pagãos que habitavam a Palestina e o Mediterrâneo.

Quando se chega a Corinto, cidade próxima a Atenas que deu o nome ao estilo arquitetônico, nos deparamos com as origens do cristianismo: foi para a igreja situada nesta cidade, então a capital da Grécia dominada pelo Império Romano, que o apóstolo Paulo endereçou sua famosas Epístolas aos coríntios. Na primeira delas, aparece a célebre mensagem sobre o amor: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse o amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”.

O próprio gênero epistolar utilizado por Paulo se baseia na forma literária grega. O helenismo era recorrente: até as citações do Velho Testamento eram feitas a partir da tradução grega – já que o principal público dessas missões do cristianismo eram os judeus, que naquela época encontravam-se altamente helenizados.

É ainda em Corinto que São Clemente, então bispo de Roma, se dirige à igreja para sanar  disputas de autoridade lá existentes. Ele usa da retórica à maneira antiga e de exemplos caros à tradição filosófica grega (como o das partes do corpo que se rebelam, comprometendo o funcionamento do conjunto, até serem convencidas que fazem parte de um só corpo), para demonstrar como a igreja depende da união dos seus fiéis. No final da carta, o terceiro papa do catolicismo chega a falar em “Paideia de Deus”, ou “Paideia de Cristo”, como força protetora na vida do cristão.

Não é somente na Grécia continental que se pode entrar em contato com as origens do cristianismo. Em Patmos, ilha grega de 34 quilômetros quadrados que fica próxima à Turquia, está a caverna onde, segundo a tradição, o apóstolo João escreveu o Apocalipse, livro bíblico dos mais  enigmáticos e controversos, que significa simplesmente “revelação”. A caverna, hoje um pequeno templo ortodoxo, onde são realizadas cerimônias da igreja grega, recebe constantemente visitantes, que nela vivem experiências das mais diversas. O próprio lugar parece ter uma “alma” que envolve os que ali estão, pela energia própria ou pelo simbolismo do local. Entretanto, as pessoas que se deixam fotografar ao lado da placa “Cave of Apocalypsis”, podem não sentir nada a esse respeito.

Mais acima da caverna, existe o mosteiro dedicado a São João, com uma vasta iconografia sobre a vida do evangelista nas paredes e nos arcos. O mosteiro, em estilo bizantino, construído em 1088, fica no topo da ilha, sendo visto desde quando chegamos de navio. Sua forma exterior se assemelha a um castelo medieval, às fortificações que se preveniam contra os invasores.

Do mar, também se observa o predomínio das igrejas na paisagem ilhéu. É assim em Santorini, grande ilha com 75 mil metros quadrados que aparece como uma muralha, branca no topo, no meio do oceano. É difícil reconhecer, ao longe, que essa faixa branca que domina o alto da ilha é composta de casas e construções, todas uniformemente pintadas na cor que Le Corbusier defendia que devia revestir todas as construções humanas.

INFLUÊNCIA BIZANTINA

Em Míconos, uma das mais belas e badaladas ilhas do Mar Egeu, além das ortodoxas, existe uma igreja católica bizantina que, mesmo mantendo o rito oriental tradicional, aceita a autoridade do papa – fruto de uma cisão da Igreja Ortodoxa em 1829.

Também na Grécia continental, uma série de monumentos mostra a força da tradição religiosa originária de Bizâncio: os mosteiros de Meteora, perto da cidade de Kalambaka, que foram construídos nas rochas, a uma altura entre 305 e 549 metros, com a principal função de protegê-los do invasor otomano. É fascinante a visão dos mosteiros em cima das rochas – a sensação é de algo inacessível e remoto, pertencente a outra era, definitivamente diversa da nossa, na qual tudo parece ser feito para ser acessível e claro.

Lá, o espírito monástico, de isolamento e contemplação, encontra sua expressão espacial máxima. Atualmente, os seis mosteiros que sobraram (cinco masculinos e um feminino) são mais acessíveis, alguns dispõem de escadas e estradas para carros – coisa que não existia até a década de 1920. Ainda hoje, a comida e outros objetos menores são abastecidos por cordas.

Esses mosteiros, erguidos ainda na época do Império Bizantino, herdeiro helenizado e cristão do Império Romano, são hoje considerados patrimônio da humanidade segundo a Unesco – o que ajuda a atrair uma quantidade grande de turistas, que lotam todos os mosteiros abertos à visitação. É de se entender porque as regras de não se falar com os monges e de não fotografar dentro dos mosteiros são tão bem divulgadas, apesar de não serem sempre cumpridas dentro daquele espaço originalmente silencioso. Aquele que quiser ter um momento de silêncio contemplativo, em contato com os ícones dourados da ortodoxia ou das flores que adornam os jardins do mosteiro, têm que aproveitar o curto intervalo entre a chegada um e outro grupo de turistas.

A segunda maior cidade da Grécia, Thessaloniki, parece fundir muitas das fases aqui descritas: foi uma grande cidade na antiguidade, por seu importante porto. Sob o Império Romano, foi visitada pelo apóstolo Paulo, que a ela dedicou duas de suas epístolas; foi ainda uma importante cidade bizantina, com grande atividade comercial, até, na decadência do Império, ser vendida para Veneza. Apos 1430, foi ocupada pelos otomanos, e só foi retomada ao território grego na Guerra dos Balcãs, no começo do século 20.

Em Thessaloniki, as sedimentações da história são expostas e convivem lado a lado. Essa grande cidade abriga o túmulo do pai de Alexandre, o Grande, as ruínas romanas, as muralhas bizantinas, os fortes venezianos e o que restou de construções otomanas – e ainda tem o mais rico acervo de igrejas ortodoxas, como seus habitantes se orgulham de afirmar.

Nossa viagem termina no caminho volta para Atenas, a eterna capital do mundo grego, onde as constantes manifestações contra as medidas de austeridade do governo não parecem afetar a vida perene dos museus e sítios arqueológicos. Nessa contemporânea e agitada capital europeia, ainda é possível a reflexão sobre a civilização e sobre o homem como ser histórico. E ali existem grandes pretextos para tanto. Difícil é um indivíduo voltar indiferente àquilo que foi visto, sentido e imaginado.

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