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“Hoje, o ensaio é o que há de mais interessante”

TEXTO E FOTOS Josias Teófilo

Publicado na Revista Continente de março de 2014

Wagner Carelli tem uma trajetória singular na história do jornalismo brasileiro: formou-se em Comunicação aos 17 anos, em 1974, foi aluno e colega de Vladimir Herzog e logo passou a trabalhar no maior jornal do Brasil àquela época: o Estado de S. Paulo, que se encontrava sob censura do regime militar. Era o tempo em que os repórteres brigavam pelas matérias que seriam censuradas, como ele diz: “O maior troféu que você poderia ter era escrever uma matéria excepcional, que seria substituída por um verso de Camões”.

Demitido do Estadão após uma viagem a Cuba com Chico Buarque, Antonio Calado e Fernando Morais, entre outros, ele passou a colaborar para a revista Istoé, na qual logo chegou a ser editor de cultura. Lá, fez uma polêmica reportagem sobre o cotidiano dos exilados da ditadura que voltavam à convivência no Brasil, chamada Verão da anistia, provocando a ira da esquerda brasileira. Duas grandes personalidades ideologicamente opostas se posicionaram a seu favor: Luís Carlos Prestes e Paulo Francis. Este último escreveu um artigo na Folha de S.Paulo defendo-o da enxurrada de críticas. O epsódio ligaria posteriormente Carelli ao seu “norte absoluto”, como ele escreveu, numa amizade que durou até a morte de Francis.

Wagner Carelli foi o criador da revista Bravo!, uma das mais influentes publicações culturais do país, e da revista República – as duas pertencentes à Editora D’Ávila. República e Bravo! juntaram grandes personalidades da cultura nacional, figuras de pensamentos divergentes como Ferreira Gullar, Bruno Tolentino, Sérgio Augusto, Olavo de Carvalho, Daniel Piza, Reinaldo Azevedo; artistas como o compositor Hans-Joachim Koellreutter, o cineasta Rogério Sganzerla, escritores como Ariano Suassuna, Michel Laub, Fernando Monteiro, fotógrafos consagrados como Bob Wolfenson, Edu Simões, Cristiano Mascaro.

Eles conviveram lado a lado na hoje histórica revista, que em tantos momentos deu aulas de jornalismo cultural e exemplo da cultura tratada “como sentido de vida, não como entretenimento, o que Aristóteles propunha como única satisfação do espírito humano”, de acordo com as palavras de Wagner Carelli. Um ano após Carelli deixar a direção de redação da revista, ela passou ao grupo Abril, que alterou consideravelmente a forma e o conteúdo da publicação, perdendo seu caráter ensaístico e a ousadia na abordagem. A revista ficou no mercado por uma década, sendo encerrada no segundo semestre de 2013.

CONTINENTE: Como foi a sua formação em jornalismo?
WAGNER CARELLI: Entrei em Jornalismo na FAAP, uma escola muito boa, os professores excelentes. Àquela época, os professores eram Vladimir Herzog, Rodolfo Conder e a turma toda que acabou sendo presa pela ditadura.

CONTINENTE: Então a sua formação foi prática acima de tudo?
WAGNER CARELLI: Sim. Na FAAP, os meus professores eram também colegas nas redações em que trabalhei. É interessante porque o fato de meus professores serem também bons jornalistas, na ativa, fez com que, no fundo, nós todos nos reuníssemos para estudar aquilo que estávamos fazendo. Era quase um laboratório. Mas tudo explodiu na tragédia que foram as prisões de todos aqueles jornalistas e o episódio de Vladimir Herzog.

CONTINENTE: E foi na oposição ao regime militar que as melhores mentes do país se juntaram?
WAGNER CARELLI: Exatamente. Quando houve a abertura, eu me lembro de Millôr dizendo: “Agora que estamos todos juntos outra vez podemos dizer como nos odiamos!”. Foi exatamente o que aconteceu!

CONTINENTE: Como foi o seu primeiro contato com Paulo Francis?
WAGNER CARELLI: Naquela época, havia o debate sobre a dívida do Brasil em Nova York e fui mandado pela revista em que trabalhava para cobrir o assunto. Foi uma aventura porque você não podia carregar dólares, precisava mandar o dinheiro com certa antecedência e retirá-lo lá. O problema é que, chegando em Nova York, não tinha entrado dinheiro nenhum, e eu fiquei sem um tostão – estava exatamente como o Brasil naquele momento. Aí me hospedei na casa de um amigo, que era uma pocilga, uma coisa medonha. Mas não tinha jeito e tive que dormir lá. No outro dia, na cobertura, havia vários jornalistas, entre eles Sonia Nolasco, mulher de Paulo Francis. Nós nos apresentamos e ela falou: “Você é Wagner Carelli, aquele que fez a matéria na Istoé? Francis te adora, você precisa conhecê-lo”. Falei que estava sem dinheiro e ela me convidou para ir para o apartamento deles, que era um palácio, de frente para a ONU. Imagina para mim o privilégio que foi estar na sua casa, com os seus gatos. Para ficar com Paulo Francis, eu ficava até na pocilga! E a gente se deu extraordinariamente bem. Ele era um doce de pessoa, e tinha um carinho muito grande. Nós conversamos e ficamos muito amigos, depois passamos a nos falar quase todos os dias. Quando ele viajava, eu ficava lá, cuidando dos gatos. Quando montei a República, eu o chamei para colaborar.

CONTINENTE: A Bravo! nasceu em 1997, ano da morte de Paulo Francis, isso é simbólico para você? Ele que era um erudito, amante e crítico de arte. Aliás sua erudição faz muita falta hoje em dia, especialmente na televisão. Podemos dizer que a revista ocupou esse vazio ou a morte de Francis foi um impulso para criá-la?
WAGNER CARELLI: Quando Francis morreu, nós já estávamos a meio caminho da criação da revista. A Bravo! foi lançada em outubro, ele morreu às vésperas do Carnaval. Antes disso, eu estava com Mino Carta criando a Carta Capital, e estava muito bem lá. Só que, naquele momento, eu estava precisando de dinheiro. Apareceu uma amiga minha, Renata Rangel, e falou de um sujeito que queria fazer uma revista. Então ela me apresentou ao Luis Felipe D’Avilla. Ele tinha encomendado um projeto de revista para um designer, me mostrou, e eu falei: “Como assim, você encomenda um projeto de revista para um designer?”. Mostrei como primeiro vinha um projeto editorial e o projeto gráfico se moldava a este. Estava tão à vontade para recusar qualquer oferta dele, que peguei o projeto gráfico e joguei numa lata de lixo. Por isso acabei causando uma profunda impressão nele. Em seguida, D’Avilla me ligou e propôs fazer uma revista como a (americana) George, oferecendo-me um monte de dinheiro, que era quase três vezes o que eu precisava naquele momento. Mas não aceitei, pensei que ele era um aventureiro, que o projeto não ia durar. Ele continuou me ligando e, quando vi que o dinheiro não ia sair de onde estava, acabei aceitando. Quando nós pusemos a República para andar, Luis Felipe deu a ideia de fazer uma revista cultural – e eu falei que já tinha o modelo. Então nós conseguimos a parte financeira, mas faltava montar a redação. Chamei o Daniel Piza para ser diretor de redação, ele não aceitou – foi uma dificuldade, porque ninguém queria aceitar uma responsabilidade daquelas. No final das contas, nós fizemos em 23 dias a Bravo!. A ideia toda era completamente maluca, se fosse levada para a Abril iam mandar prender. Ou seja, fazer uma revista com 154 páginas, quatro cores, papel couché, era impossível. Tanto que, quando nós mostramos aos patrocinadores o resultado final, eles ficaram preocupados, dizendo que era muito mais do que tinha sido acertado inicialmente. Preocupados porque pensaram como seria possível sustentar aquilo tudo.

CONTINENTE: É verdade que cada edição custava uma fortuna? Escreveram: 250 mil reais…
WAGNER CARELLI: Era muito caro, mas não era 250 mil. Custava cerca de 115 ou 120 mil reais. Nós pensávamos que ia vender pouco, 5 mil exemplares. E nossa primeira tiragem foi de 40 mil exemplares. A revista foi concebida para ser uma agenda cultural, ela estava ligada aos acontecimentos daquele mês, só que aquilo era um pretexto para que a gente tratasse exaustivamente todo o assunto. E outra coisa: ela não tinha limite de páginas, se a matéria tivesse 14 páginas, entrava com 14 páginas… Usávamos as fotografias de forma bastante generosa, e o texto entrava inteiro. Era o total oposto do paradigma de revista.

CONTINENTE: Em 1997, quando a revista foi lançada, o cinema nacional estava reaquecendo depois da retomada, em 1995. A Sala São Paulo seria construída em 1999, que é a grande sala de concerto do Brasil. Você reconhece um alvorescer da cultura nacional naquela época?
WAGNER CARELLI: Claro, era não só o alvorecer da cultura nacional, como era a inclusão do país no cenário cultural internacional. O que me levou a acreditar que uma revista como essa seria adequada e estava no momento para que ela fosse feita: aqui, em São Paulo, a exposição do Rodin recebeu um milhão de pessoas. Depois, teve uma exposição de Monet de quinta categoria no MASP – público de 500 mil pessoas. Vladimir Ashkenazhy viria ao Brasil reger a orquestra de Israel, só que ele brigou com a orquestra e embarcou sozinho. E para ele não fazer nada, arranjaram o auditório da Hebraica para ele tocar. Minha esposa conseguiu o ingresso e estava completamente lotado, ofereceram-me 500 dólares por ele e eu não vendi, e não encontrei ninguém que vendesse. Até hoje, não me lembro de um recital semelhante, foi uma epifania, uma coisa revelatória.

CONTINENTE: Nessas edições da Bravo!, nós vemos figuras com posturas ideológicas completamente diversas convivendo lado a lado, textos de Olavo de Carvalho, Bruno Tolentino, Sérgio Augusto, Ferreira Gullar, Fernando Monteiro…
WAGNER CARELLI: Bruno foi editor, imagina uma revista que tinha Bruno Tolentino como editor! A ideia toda era que, sem se comprometer, sem ceder absolutamente nada na qualidade da sua avaliação, da sua critica, do seu conteúdo, você poderia fazer um produto vendável. Obviamente, não venderia como o álbum de figurinhas da seleção brasileira. No dia seguinte à distribuição do primeiro número da revista, todas as bancas da região dos Jardins ligavam pedindo reposição. E vendeu tudo. Na segunda edição, com aquela capa de Caetano Veloso na famosa foto de Bob Wolfenson, a revista já tinha ganhado dois ou três prêmios.

CONTINENTE: E como foi a descoberta do escritor pernambucano Fernando Monteiro?
WAGNER CARELLI: Um dia, estou na redação e vejo um livro em cima da mesa, sozinho. O livro não tinha nada de chamativo, eu o peguei e vi que havia sido editado em Portugal. Comecei a ler e era completamente diferente de tudo que lia no Brasil naquela época, porque, quando comecei a editar na Editora Globo, todos os originais eram escatológicos logo na primeira página, tinha alguém vomitando, passando mal, tinha alguma privada. Havia essa tentativa de ser verdadeiro, carnal, visceral. Mas não era um ou outro, eram todos! E aí aparece esse cara, escrevendo sobre um cineasta, que eu nem sabia se existia de fato ou não, e escrevia lindamente. Eu dizia: “Como é linda essa língua, quando se escreve bem!”. E, de repente, olho e está escrito: “Fernando Monteiro nasceu no Recife”. Mas mesmo assim eu pensei: “Ah, ele nasceu no Recife por acaso, e certamente agora mora em Portugal”. E não era por ser o Recife, eu não acreditava que de nenhum lugar do Brasil fosse sair um cara daquele. Quando olho, tem uma carta de Fernando dizendo mais ou menos assim: “Estou mandando esse livro porque minhas filhas me pediram pra mandar, mas estou absolutamente certo de que vocês vão olhar como uma produção menor, de um escritor menor, de um lugar menor, e muito obrigado pela atenção ou pela desatenção, se é que você chegou a ler até o final”. É que eu era muito mais exigente com relação à literatura, que é a minha área, e o romance brasileiro recente está uma tragédia: não tem nada que te atraia, que te chame. Desde Fernando Monteiro até agora, acho que somente de um romance do Contardo Calligaris eu gostei, mas ele é italiano.

CONTINENTE: Ainda sobre a revista, era comum artistas escrevendo sobre arte. É uma coisa muito incomum, não é?
WAGNER CARELLI: Esse território da opinião é muito complicado. O jornalista em geral é muito corporativista, ele odeia ver quem não é do ramo escrevendo qualquer coisa. Embora isso tenha mudado muito, ainda é uma atividade que alguns concentram e de que não abrem mão. Na Bravo! havia essa cultura de abertura. Também podia aparecer uma fotografia de alguém que não fosse fotógrafo, ou uma peça ilustrativa feita por um escritor. Mas, certamente, nenhuma publicação quer se meter nesse tipo de coisa, não interessa que os artistas se pronunciem. Hoje, o ensaio é literariamente o que existe de mais interessante: por isso está havendo a fusão do ensaio com o romance, com a poesia, com a reportagem. Aquilo que você encontrava em se tratando de ensaio na revista encontra-se hoje expandido em livros.

CONTINENTE: Na revista República foi publicada uma matéria sua de 10 páginas sobre O imbecil coletivo, livro de Olavo de Carvalho, junto a uma entrevista com ele. Você o descreve como “critico e intérprete de maior clareza da cultura brasileira e universal em atividade franca, incansável e produtiva”. Você reafirmaria isso hoje?
WAGNER CARELLI: Reafirmaria. Acho que nunca encontrei um cara que pensasse melhor do que Olavo de Carvalho. Fui ver uma aula dele sobre Kant, lembro que a exposição dele foi de uma clareza e de uma abrangência, que fiquei pasmo. E ele falava sobre Kant como se fosse um cara que estivesse ali no escritório, escrevendo e publicando na Folha de S.Paulo. Mas, para mim, Olavo tem a mania de se apequenar, acho que ele tinha que se poupar, tinha que ter mais cuidado com isso que lhe foi dado a compreender.

CONTINENTE: Olavo de Carvalho lançou recentemente O mínimo que você precisa saber pra não ser um idiota, que já está há várias semanas entre os mais vendidos, mas saiu pouca coisa sobre ele na grande mídia. Ninguém está fazendo por ele o que você fez naquela época. Seria o patrulhamento ideológico?
WAGNER CARELLI: O que denota isso: as pessoas estão comprando o livro dele, estão superinteressadas no que ele tem a dizer. As pessoas não estão nem aí para a mídia, porque a mídia não as representa mais. Esse é o grande problema de você não produzir mais bom jornalismo. As pessoas estão se aproximando do pensamento conservador porque ele é mais generoso atualmente. Até agora, não vi uma análise de por que as manifestações de junho rechaçam a grande mídia.

CONTINENTE: Qual foi a melhor entrevista que você já fez?
WAGNER CARELLI: Foi com Bernardo Bertolucci. Desde o primeiro filme dele a que assisti, O conformista, achava que ele fazia os filmes para mim. Então apareceu O último tango em Paris, que foi o meu momento icônico: fui totalmente abraçado pela obra. Segui para a Itália, eram os 100 anos da Fiat, e havia uma amiga que tinha contato com ele. Só que, naquela época, ele estava com uns problemas na coluna, que o deixariam paralítico. Liguei e atendeu a secretária eletrônica, então falei um absurdo: “Olha, eu sou jornalista brasileiro, você precisa me conceder uma entrevista porque eu sou o cara para quem você fez todos os seus filmes”. Aí me encontrei com a amiga que tinha me dado o contato de Bertolucci e com o marido dela, e contei o que eu tinha feito. À medida que ia falando, eles iam ficando envergonhados… No dia seguinte, Bertolucci liga para ela, e diz: “Tem esse jornalista aí que quer muito falar comigo, manda ele vir aqui, estou na minha casa, na Toscana”. Então fiz uma entrevista sobre o amor, foi uma coisa completamente subjetiva. Pedi-lhe para me explicar como fazia os filmes. E ele se abriu, contou como foram as filmagens de O último tango em Paris, sobre a sua relação com Marlon Brando. Disse que, pelas manhãs, iam com todos os atores ao museu ver uma exposição do pintor Francis Bacon. A entrevista foi feita numa das locações do filme dele, na Toscana.