Textos

ENTREVISTA RONALDO MIRANDA

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TEXTO Josias Teófilo

FOTO Rodrigo Rosenthal/divulgação

“A criação musical basta a si mesma e não depende necessariamente de uma reflexão dissertativa sobre o objeto criado”

No dia 17 de julho último estreava na Sala São Paulo, regida pelo aclamado maestro brasileiro Marcelo Lehninger, as Variações temporais, obra sinfônica do compositor carioca Ronaldo Miranda. A obra é uma encomenda da Osesp ao compositor com o objetivo de servir de preâmbulo à Sinfonia Pastoral de Beethoven, tocada na segunda parte do programa, e dialoga com a música de câmara do compositor alemão, especialmente as sonatas Aurora, Primavera e Tempestade. A obra, tocada pela Osesp na Sala São Paulo e no Auditório Claudio Santoro em Campos do Jordão, é na verdade a culminância da obra do compositor de 66 anos que esse ano teve sua terceira ópera encenada, o Menino e a liberdade, no Theatro São Pedro na capital paulista. É antiga a relação de Ronaldo Miranda com a Osesp e remonta à época do lendário maestro Eleazar de Carvalho. Na 45o edição do Festival de Campos do Jordão foi tocada pela Orquestra Sinfônica de Santo André outra relevante composição de Ronaldo Miranda, a Sinfonia 2000, realizada por encomenda do Ministério da Cultura em comemoração aos 500 anos do Brasil.

CONTINENTE Como você que já teve peças tocadas e encomendadas pelas Osesp em diversas fases de sua existência vê a atual fase da orquestra?

RONALDO MIRANDA Minha primeira obra encomendada pela Osesp estreou em 1982 no Teatro Cultura Artística. Por coincidência a peça foi feita para abrir um programa, em forma de variações, tal como a obra que estreei este ano com a nova Osesp. Chamava-se Variações Sinfônicas, título que tomei emprestado à Cesar Franck: foi a primeira peça que escrevi para grande orquestra. Eleazar de Carvalho programou-a ao lado da Rapsódia sobre um  tema de Paganini, de Rachmaninoff (obra que também usa a forma “Tema com Variações”) e a Sagração da Primavera, de Stravinski, pois se comemorava o centenário de nascimento do autor. Com essa performance, ganhei meu primeiro Prêmio APCA: Melhor obra orquestral de 1982.  Eu tinha 32 anos e era um carioca praticamente desconhecido, como compositor, em São Paulo. Só identificavam em mim o crítico de música de Jornal do Brasil. Depois disso, veio o Concerto para Piano e Orquestra (1983), Eleazar regendo e eu atuando como solista. A obra logo voltou às estantes da Osesp, no Festival Música Nova, com John Boudler na regência e Gilberto Tinetti no piano solista. Na nova Osesp, estreei com Horizontes (peça programática que ganhou em 1992 um concurso de Composição da UFRJ celebrando o bi-centenário do Descobrimento da América). Ela foi tocada pela Osesp em 1999, ano de inauguração da Sala São Paulo, com Roberto Minczuk na regência. Ao final de 2006, John Neschling regeu, com Eduardo Monteiro solando, meu Concertino para Piano e Orquestra de Cordas, na série oficial da orquestra: foi um grande sucesso. Na ocasião, ele  prometeu me encomendar um Concerto para Violino, cujo solista seria Claudio Cruz. Com o afastamento de Neschling, esse projeto foi retomado em 2009, por Marcelo Lopes, Diretor Executivo da orquestra, que formalizou a nova encomenda para abril de 2010. E, assim, estreei a nova encomenda nessa data: Claudio Cruz foi o solista e Minczuk mais uma vez foi o regente. Em 2013, recebi de Arthur Nestrovski, atual Diretor Artístico da Osesp, o convite para compor uma nova obra para a orquestra, a ser estreada em julho deste ano, sob a regência de Marcelo Lehninger. Assim nasceram as Variações Temporais – Beethoven Revisitado. Em sua primeira fase, no Teatro Cultura Artística, a Osesp produziu belos momentos de música, sob o comando do maestro Eleazar. Mas foi decaindo, à medida em que mudava de sede. Passou para o Cine Copan e acabou no Memorial da América Latina, cujo teatro tem péssima acústica para a música não amplificada. Eleazar morreu lutando para manter sua orquestra, sem força política para mudar. Com Neschling  e Marcos Mendonça, no governo Covas, a Osesp ressurgiu com força total, primeiro no Theatro São Pedro e, logo em seguida, na Sala São Paulo, onde se estabeleceu em 1999. Hoje é a melhor orquestra do país e da América Latina, com um nível de qualidade que a coloca ao lado das grandes orquestras internacionais. Criou um público entusiasta e fiel, e vem mantendo, na nova gestão, um nível de qualidade altíssimo.

CONTINENTE Foi difícil a tarefa de dialogar com Beethoven nas Variações temporais?

RONALDO MIRANDA Sim, foi muito difícil. A proposta partiu de Arthur Nestrovski: ao realizar a encomenda, um ano antes da estréia, ele estipulou as características da obra comissionada, que deveria ser escrita para abrir o programa, com cerca de 10 minutos de duração e funcionando como uma espécie de prólogo para a Sinfonia Pastoral, de Beethoven, que seria ouvida na segunda parte da apresentação. Primeiramente, a idéia era tecer as variações sobre temas da própria Pastoral, mas ampliamos o conceito para obras de Beethoven ligadas à natureza

CONTINENTE Como foi realizar uma obra sinfônica a partir de referências camerísticas de Beethoven?

RONALDO MIRANDA A tarefa foi muito difícil, repito. Utilizei pequenos fragmentos de três motivos beethovenianos: o Tema B do primeiro movimento da Sonata Aurora; o Tema A do terceiro movimento da Sonata Tempestade (ambos para piano solo); e o tema principal  do primeiro movimento da Sonata Primavera  (para violino e piano). Nas minhas Variações Temporais, esses motivos já aparecem, bem modificados, no tema inicial da obra, em que componho à maneira de Beethoven. A partir da primeira variação, contudo, é a minha linguagem que entra em cena. Os três temas beethovenianos, só voltam a aparecer – com espaços bem longos entre cada um – no decorrer da peça. São citações que funcionam como links ou repousos entre as variações. Conseguir coerência, equilíbrio e unidade – nessa mistura de linguagens – foi algo árduo de obter, tomando-me cerca de seis meses de trabalho contínuo.

CONTINENTE Como é a experiência de ver a sua obra materializada, digamos, pela execução de uma orquestra como a Osesp?

RONALDO MIRANDA É uma experiência muito gratificante. O compositor está nas mãos dos intérpretes e do público. Eu diria que o intérprete é o principal elemento para que a obra composta se materialize e ganhe vida própria. E quando este intérprete é uma orquestra da qualidade da Osesp, então a experiência se torna altamente estimulante.  Em relação à Osesp, tenho tido sorte também com os regentes, do velho Eleazar ao jovem Marcelo Lehninger, passando também por Roberto Tibiriçá, sempre competentíssimo, na antiga fase da orquestra.

CONTINENTE A existência, numa mesmo estado, de instituições musicais do porte da Osesp e do Theatro Municipal, assim como o Festival de Inverno de Campos do Jordão, indica a maturidade da vida cultural de São Paulo?

RONALDO MIRANDA Sim. A vida cultural de São Paulo, especificamente falando da atividade musical, que é o meu campo de atuação, cresceu muito nos últimos 20 anos. O Rio de Janeiro tinha a primazia da atividade musical no Brasil, pois – até 1960 – foi a capital da República.  Até a  década de 1980, o Rio ainda se beneficiou das consequencias naturais desse “status”. Mas, paulatinamente, a partir da década de 1990, São Paulo foi tomando a dianteira. Fui crítico de música do Jornal do Brasil, no Rio, em dois períodos: 1974 a 1982, e 1993 a 1994. A diferença em relação aos concertos, entre os dois períodos, foi considerável, com os níveis de quantidade e qualidade decaindo vertiginosamente. Fui também diretor da Sala Cecília Meireles, no Rio, durante 9 anos. Entre 1995 e 1998, consegui fazer um bom trabalho. Entre 1998 e 2000, fui tentando manter a duras penas a qualidade da programação, mas, a partir da década de 2000, não tinha mais como estabelecer uma temporada de qualidade. Pedi exoneração do cargo em março de 2004 e, em setembro do mesmo ano, transferi-me para São Paulo, onde vivo há 10 anos e sou Professor de Composição no Departamento de Música da ECA-USP. Em São Paulo, estreei minhas três óperas: Dom Casmurro (1992), A Tempestade (2006) e O Menino e a Liberdade (2013), e tenho obtido, ao longo da minha carreira, muitas outras encomendas. É verdade que o Rio também me prestigia muito, em relação às encomendas sinfônicas, à Bienal da Funarte (onde começou minha carreira de compositor, em 1977) e à execução e gravação de minhas obras. Mas jamais consegui levar uma ópera de minha autoria à minha cidade natal. Comparando as duas cidades, no momento atual, São Paulo consegue, com ampla vantagem, a primazia da atividade musical.

CONTINENTE Como você vê a importância da figura de Eleazar de Carvalho para a existência da Osesp e do Festival de Inverno de Campos do Jordão? 

RONALDO MIRANDA Eleazar de Carvalho foi um pioneiro em relação a muitas realizações musicais no Brasil. Enquanto diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira, seus Concertos para Juventude marcaram época no Rio de Janeiro. Enquanto regente brasileiro, foi o primeiro a ter projeção internacional, dirigindo a Orquestra de Saint-Louis, regendo nas principais capitais européias, ensinando Regência em Yale e, antes, no Festival de Tanglewood, onde se orgulhava de ter tido como alunos Zubin Mehta e Seiji Ozawa. Ao ser afastado da OSB, Eleazar veio para São Paulo e fundou a OSESP, fazendo História novamente. O Festival de Inverno de Campos do Jordão – inspirado em Tanglewood – foi outra realização sua,  maravilhosa, pois nunca outro curso de férias brasileiro, no âmbito da música, atingiu tal magnitude. Infelizmente, Eleazar morreu com total desprestígio político,  reunindo todas as suas forças para manter viva a OSESP, que se apresentava toscamente no Memorial da América Latina e chegava a ensaiar muitas vezes no auditório do colégio Caetano de Campos, na Aclimação, sem qualquer condição acústica para uma orquestra do seu porte. Para a música brasileira, Eleazar não mediu esforços e foi um grande incentivador. Posso me considerar um privilegiado, por ter recebido dele um impulso decisivo : acreditou em mim, como jovem compositor, dando-me raras oportunidades e colocando nas minhas mãos meu primeiro Prêmio APCA, em 1982.  Muitos outros compositores foram prestigiados por Eleazar, de Claudio Santoro a Edino Krieger, passando por Almeida Prado, de quem ele gostava especialmente e de quem estreou sua inesquecível “Aurora”. Frequentemente, me lembro de Eleazar regendo Santos Football Music, de Gilberto Mendes, com a bola na mão, fazendo com total circunspecção (e um surpreendente talento de ator) o papel de maestro-juiz de futebol. Aos poucos, o Brasil vai retomando a consciência da sua real importância.

CONTINENTE De que forma as atividades de professor de composição da USP e de compsitor se complementam na sua rotina?

RONALDO MIRANDA No Brasil e no resto do mundo, os compositores que escrevem música de concerto dedicam-se em geral a três atividades, para poder sobreviver: ou são regentes, ou dão aula numa universidade ou trabalham com administração musical. Jamais regi: não tenho esse dom, nem desenvolvi essa técnica. Mas tenho-me dedicado ao ensino e à administração musical. O início da minha carreira colocou-me em contato com a administração cultural, desenvolvendo projetos nesse campo no Jornal do Brasil do Rio, onde fui também crítico musical. Depois, fiquei cinco anos na Funarte, trabalhando com Edino Krieger no Instituto Nacional da Música. Simultaneamente, tornei-me Professor de Composição da UFRJ, onde formei um grupo de excelentes alunos, hoje em plena atividade como compositores. Passei de novo pela administração musical, dirigindo a Sala Cecília Meireles, por nove anos. E, desde 2004, sou professor do Departamento de Música da ECA-USP, onde tenho procurado transmitir minha experiência e meu conhecimento para os jovens que lá estudam. Certa vez, na década de 1980, fui apresentado ao compositor inglês Michael Tippet, durante um evento no Rio de Janeiro. Ao saber que eu era um “jovem compositor”, Tippet perguntou-me à queima roupa: você vive da sua composição? Não, respondi eu. Nem eu, retrucou ele. Ora, se o decano dos compositores da Inglaterra – país de intensa atividade musical – não conseguia viver da composição, quem mais conseguiria? Achei talvez um exagero aquela afirmação naquele momento. Aos 90 anos, Tippet viajava pelo mundo por conta do Conselho Britânico, para divulgar sua música, acompanhado de seu biógrafo. Certamente, ele já poderia viver dos royalties, dos copyrights e das encomendas. Mas ainda assim afirmou o contrário, talvez por ter sido essa a sua experiência (na maior parte da sua vida) e a dos demais compositores. Na verdade, lecionar e compor já se tornou um hábito para mim. E, como dizia meu antigo professor de Análise Musical, Hélcio Soares (que implantou na UFRJ o primeiro Mestrado em Música no Brasil): a composição é o mais alto grau da Pesquisa em Música. Eu acredito nisso: a criação musical basta a si mesma e não depende necessariamente de uma reflexão dissertativa sobre o objeto criado. A teoria é importante, mas de nada vale sem a prática, no campo da atividade composicional, tal como ocorre em relação ao ensino de um instrumento. Professores e alunos de composição precisam, antes de mais nada, exercer o ofício de compor.

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