Texto e fotos por Josias Teófilo

Publicado na revist

a Continente de abril de 2013.

O compositor pernambucano Marlos Nobre, 74 anos, é autor de uma vasta obra de música de concerto, como ele prefere chamar. Vive no Rio de Janeiro desde 1962 mas são as expressões musicais pernambucanas que lhe inspiram continuamente. Apesar de ter sua música, que chega à 118ª obra, tocada por algumas das principais orquestras do mundo, são raras as ocasiões em que é possível ouví-la na sua cidade e se restringem ao Festival Virtuosi. A Orquestra Sinfônica do Recife, por exemplo, há muitos anos não inclui uma obra do compositor no seu repertório – enquanto nas duas principais orquestras brasileiras atuais, a Filarmônica de Minas Gerais e Osesp, a obra do compositor pernambucano é presença constante e destacada.

CONTINENTE Como surgiu o convite para a homenagem aos 100 anos da Sagração da primavera?

MARLOS NOBRE O convite surgiu no ano passado, do diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski e imadiamente a idéia me agradou e aceitei fazer a obra por encomenda dele. Minha relação com a Osesp é longa, pois além de outra encomenda importante em 2009 (quando escrevi o meu Concerto nº 2 para percussão e orquestra, estreada em novembro de 1999), eu tive praticamente todas minhas obras orquestrais tocadas pela orquestra, desde In Memoriam, Mosaico, o Concertante do imaginário (com Maria Luiza Corker, minha mulher, como solista), até Kabbalah, o Concerto breve, Convergencias e o meu Concerto duplo para 2 violões e orquestra, estreado pelo Duo Assad em 2004. Portanto a orquestra está muito ligada às minhas obras e conhece o meu estilo de longa data.

CONTINENTE É antiga a sua relação com a obra mais famosa de Stravinski? Quando começou?

MARLOS NOBRE Minha relação com a Sagração da primavera, mas também com Petrushka e o Pássaro de fogo, data de minha adolescência, quando tinha 16 anos. A descoberta destas obras foi o maior impacto musical que recebi e praticamente me decidiram a me tornar compositor. A Sagração, principalmente, foi o maior impacto musical de minha adolescência. Naquela época (estou falando de 1956/57) no Recife, a Orquestra Sinfônica de Recife não podia apresentar estas peças. Mas por um feliz acaso me tornei amigo de um violista da orquestra, Cabral de Lima, que tinha a mais completa discoteca de música moderna do Brasil! Simplesmente ele tinha praticamente tudo! Na sua casa, onde nos reuniamos todas quartas feiras, eu ouvi pela primeira vez, fascinado, Debussy, Ravel, Prokofiev, Bartok, Hindemith, Stravinski, Schoenberg, Berg, Webern, Messiaen, Stockhausen. O homem tinha tudo! Ele conseguia comprar, não sei como, todos os discos de música moderna do momento. Isso colocava o Recife em situação superior ao Rio e a São Paulo da época neste sentido. Eu passei a ouvir umas 20 vezes por mês a Sagração e como já falei, a partir do fascínio pelos rítmos e orquestração. Procurei a partitura e não tinha no Recife nem consegui comprar no Rio. Assim eu procurava tocar no meu piano, imaginando a partitura que só viria a ter em mãos em 1963 quando fui a Buenos Aires.

CONTINENTE No meio musical recifense da época da sua formação como compositor havia espaço para a vanguarda da música?

MARLOS NOBRE Nesta época não havia espaço nem no Conservatório, nem junto aos meus professores de piano e de teoria (apesar da abertura de espírito do Padre Jaime Diniz: mas ele me dizia ter informações mas não tinha aprofundado ainda este tema. Assim, o espaço surgiu de colegas músicos e intelectuais que eram amigos no Recife na época, e como disse a casa do Cabral de Lima, em Casa Forte, para a qual convergiam todos nós, jovens. Tinha um colega, chamado Wener Tiburtius, filho de alemães, que somente admitia música moderna, de vanguarda. Com ele eu lia as partituras que chegavam às mãos nossas, sobretudo Hindemith (Ludus Tonalis, por exemplo), Messiaen, Ravel, Prokofiev. E este nosso grupo pressionava por exemplo  Vicente Fittipaldi, diretor da Orquestra do Recife, a programar música moderna. Era uma época fascinante de descobertas e neste nosso mundo não havia espaço para música do passado, como chamávamos, com a petulância a auto-suficiência própria da juventude. Mas isso era bom, era um sopro de renovação no ambiente muito provinciano do Recife musical daquela época, que somente se interessava pelos recitais de piano, com o mesmo repertório surrado de sempre.

CONTINENTE Além de Stravinski, podemos dizer que existe Pernambuco no Sacre du sacre?

MARLOS NOBRE É claro que sendo minhas raízes profundas do Recife, há um amálgama das influências de Stravinski e de minhas raízes ligadas à música popular do Recife. E não é por menos que eu adorava perdidamente o frevo do Recife, pois há uma imensa conotação stravinskiana nos metais e na percussão do frevo de rua de Recife. E estou seguro que uma das razões que Stravinski me fascinou, vem seguramente do fato e ter vivido, como menino da Rua São João, no centro do Recife, a experiência do Carnaval de Recife passando na porta de minha casa. Eu ouvia fascinado desde criança, como já disse tantas vezes, os metais dos frevos, a percussão profunda e mística dos Maracatus, a brincadeira dos Caboclinhos, que são uma espécie de “scherzo” mágico e profundo de nossa música popular. Tudo isso marcou minha infância para sempre e enriqueceu minha mente e meu “baú” de recordações, o meu jardim particular de lembranças e experiências musicais. Ao ouvir Stravinski portanto, eu o assimilei através de minha própria experiência com os rítmos poderosos dos Maracatus. A polifonia rítmica dos Maracatus estão presentes, sim, nesta minha obra Sacre du sacre sobretudo na parte final, onde eu crio uma verdadeira polifonia rítmica e métrica.

CONTINENTE Stravinski bebeu diretamente na mitologia eslava, pagã, para compor sua obra. O mito, falando de uma forma geral, existe também no Sacre du sacre?

MARLOS NOBRE O mito existe sim, também neste meu Sacre du sacre e este mito pagão, popular, forte, essencial que vem do Maracatu eu o transformei em minha mente tal como Stravinski fez com a mitologia russa-eslava. As origens populares do Brasil e da Rússia, são a  meu ver, muito similares. Tal como a Rússia, o Brasil é um país imenso, onde pululam diversas formas de manifestações populares. A riqueza da Rússia e do Brasil na Música, vem portanto da assimilação destas formas profundas do povo russo, misturados com a lição da música do Ocidente. Todos os grandes compositores russos, mesmo o mais ocidental deles como Tchaikovski, trazem na alma e no profundo de sua mente criadora, a marca desta dualidade. A música russa, como a brasileira, sempre foram uma luta constante entre estes dois polos, o essencialmente e profundamente popular e o ocidental, as formas ditas clássicas da música. Daí esta enorme ligação de sensibilidade entre os compositores russos e brasileiros. Eu não tenho a menor dúvida disso: eu tenho certeza que ao descobrir Stravinski e sua música EU DESCOBRI A MIM MESMO. Isto é, eu já tinha assimilado estas formas profundas da música popular do Recife e eu as experimentava sempre no meu piano. Mas não tinha ainda ligado estas formas às obras que eu criaria depois. Havia ainda uma separação, imposta de certa maneira pelo meio musical estreito, na época, do Recife musical e cultural. Hoje a coisa mudou e felizmente isso aconteceu. Mas então, em 1954/55 existia na música que eu aprendia a separação formal: uma coisa é a música clássica, a grande música; outra coisa é a música popular e folclórica, “coisa do povo”, sem valor, a não ser para dançar e para o Carnaval. Ao descobrir Stravinski eu passei a ver a coisa interligada e comecei a misturar o frevo, o maracatu, o caboclinho, a ciranda, com as formas dita clássicas. E daí surgiu todo um mundo novo e autêntico em minha própria criação.

CONTINENTE A Osesp, melhor orquestra brasileira, reconhecida internacionalmente, já tocou toda a sua obra orquestral. A orquestra de sua cidade natal, entretanto, nos últimos anos não tocou nenhuma obra sua. Porque motivo?

MARLOS NOBRE Em primeiro lugar tem um problema sério. Até 1986 por aí minhas obras sempre foram tocadas pela Orquestra Sinfônica do Recife. Apesar de algumas limitações derivadas do isolamento dos músicos e sua situação financeira deficiente como membros de uma orquestra que pagava mal, eles tinha o ideal e a responsabilidade profissional . Sempre que vinha  ao Recife reger, dirigia obras minhas dificeis, como Convergencias, In Memoriam, Mosaico, Divertimento, Passacaglia, Concertante do Imaginário, isto é, obras que são modernas em linguagem muito avançadas, mas que com um regente experimentado diante deles, os músicos e a orquestra tocavam perfeitamente bem. Eu dirigia portanto estas obras, fazendo que pudessem entender as novas técnicas e as novas linguagens e nunca tive qualquer problema com os integrantes da Orquestra Sinfônica de Recife. A ultima vez que estive como regente à frente desta orquestra foi a convite dos Irmãos Maristas (e não da Prefeitura), para celebrar o Centenário deles no Brasil, para o qual escrevi um ballet encomendado Saga Marista, que dirigi com enorme sucesso com nossa Orquestra do Recife, em outubro de 1997 no Teatro Guararapes. Com imenso êxito, casa lotada, uma grande ovação. Depois deste ano nunca mais  fui convidado a dirigir um concerto com a Orquestra Sinfônica de Recife, a orquestra de minha infância e minha adolescência. São portanto exatos 16 anos, que jamais retornei ao Recife para dirigir esta orquestra. Os motivos? Pergunte a quem passou a dirigir esta orquestra nos últimos anos… O atual regente da orquestra, Osman Gioia, certamente pode responder.

CONTINENTE Como você vê a atual situação da Orquestra Sinfônica do Recife?

MARLOS NOBRE: A Orquestra Sinfônica de Recife eu tenho no coração. Profundamente. Foi a primeira orquestra que ouvi em minha vida, portanto é significativo para mim. Quando eu a dirijo eu sinto  um prazer especial, difícil de exprimir mas fácil de se entender. Mas o problema não é ser eu convidado ou não no Recife. O fato doloroso, insuportável e desagradável, é tolerarem essa situação absolutamente anormal, incompreensível, isto é: um responsável  que está  (há quantos anos? Doze? Quinze? Vinte?) à frente como regente titular da Orquestra Sinfônica de Recife, praticamente está regendo o que? Qual é a programação regular, anual de concertos? O que justifica então a existência dessa orquestra? O que justifica e o que significa a presença deste senhor no Recife? A orquestra está em péssima fase, não conheço nada igual no mundo inteiro. São perguntas que todos fazem.  O passado glorioso desta orquestra está sendo destruído, dilapidado, os músicos estão desestimulados e a Orquestra do Recife não tem uma programação digna deste nome. Isso para mim denota um grau de indiferença com a orquestra que é  preocupante por parte dos dirigentes políticos sobretudo o Prefeito de Recife. Hoje temos no Brasil, impulsionados pelo nível da Osesp, excelentes orquestras e programações dignas em Sergipe, Pará, Manaus, João Pessoa, Salvador; o Recife está lamentavelmente em um buraco negro que não é digno das tradições profundas de minha cidade.

CONTINENTE Qual a próxima estréia de uma obra sua?

MARLOS NOBRE: O meu Nonetto (nove instrumentos e um regente) encomendado pela FUNARTE e que estreia mundialmente na próxima Bienal de Música Contemporânea, aqui no Rio. Outra é pela Orquestra Simón Bolivar da Venezuela, um Concerto para Orquestra também neste ano, possivelmente dirigido pelo meu querido amigo Gustavo Dudamel, o maior fenômeno da regência mundial na atualidade.