Textos

ENTREVISTA COM HÉLÈNE GRIMAUD

“O Romantismo é um período fecundo”

Por Josias Teófilo

A pianista francesa Hélène Grimaud pertence a um grupo muito restrito de intérpretes eruditos cuja fama extrapola as salas de concertos. Hélène foi retratada em documentários televisivos, tem presença constante na TV, especialmente na França, e suas gravações – a maioria colocada por fãs, sem a autorização da gravadora – recebem centenas de milhares de visitas no Youtube. É artista exclusiva da Deutsche Grammophon, desde 2002, o mais importante selo de música de concerto no mundo, cuja origem se confunde com o nascimento da indústria fonográfica.

Nela, gravou uma série invejável de CDs de compositores como Bach, Beethoven, Brahms, Chopin, Rachmaninov, cujos lançamentos são sempre acompanhados de teasers, em geral muito bem produzidos, divulgados na internet. Sua gravação do Concerto para piano nº 1 de Bach, com a Die Deutsche Kammerphilharmonie Bremen, no CD dedicado a esse compositor, é primorosa e comparável à versão revolucionária feita por Glenn Gould. No CD Resonances, ela fez uma ousada escolha ao juntar compositores tão díspares quanto Mozart, Berg, Liszt e Bartók. O enfoque, na verdade, é geógrafico: trata-se da música inspirada ou produzida na Europa Central. Hélène gravou também dois dos mais belos concertos de Mozart, nº 19 e nº 23, e, em 2012, um CD com a violoncelista Sol Gabetta, considerado pela crítica especializada como o disco do ano.

Além disso, Hélène Grimaud gravou o Concerto nº 5 de Beethoven, em que tentou “fugir da concepção habitual, em que o piano soa grandiloquente, como em oposição à massa orquestral” para “fazer o piano soar como se fizesse parte da orquestra”, como declarou em entrevista. Foi esse concerto – chamado posteriormente do Imperador, não se sabe se pelo caráter grandioso do primeiro movimento ou por ser, como afirmam muitos, o imperador dos concertos para piano – que a pianista trouxe em turnê pela América Latina em maio, tocando no Brasil em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Na capital paulista, a pianista se apresentou com a Osesp, que vive um dos seus melhores momentos no cenário nacional e internacional. Ano passado, a orquestra fez turnê pela Europa, motivada pelo convite do grande festival de música de concerto do mundo, o BBC Proms, no qual foi ovacionada com o pianista mineiro Nelson Freire. Este ano, a orquestra se prepara para outra turnê, ainda mais ampla pela Europa, além de gravar a integral das sinfonias de Prokofiev e Villa-Lobos pelo selo Naxos.

Hélène Grimaud recebeu a Continenteno camarim da Sala São Paulo, logo após o ensaio com o maestro Stéphane Denève. Com seus vivos olhos azuis e a voz pausada e grave, ela falou sobre a interpretação musical, sobre o Romantismo e sobre a espiritualidade na música e na arte.

CONTINENTE: No depoimento ao encarte da sua gravação do Concerto nº 5 de Beethoven você diz que “a emoção, por si só, não leva muito longe”, pois “o emocional deve ser desenvolvido através da lógica filosófica”. Qual o papel da emoção e da razão na interpretação musical?

HÉLÈNE GRIMAUD: Pra mim é preciso que os dois estejam presentes na mesma proporção. Isso é sempre o que eu procuro, é o ideal. Se há excesso de um ou do outro, falta algo. Mas, se eu tivesse que escolher, escolheria definitivamente a emoção. É isso que caracteriza a música universal, é por isso que ela tem o poder de… como dizer, affect people, no sentido forte do termo. Não é algo feito unicamente para a razão, para a satisfação intelectual. É preciso te tocar! Para mim há definitivamente uma hierarquia, se eu tivesse que escolher. Mas, o ideal é não ter que escolher, e que os dois dialoguem sempre.

CONTINENTE: É um hábito ler sobre o repertório, informações biográficas, históricas? Isso pode ajudar na interpretação?

HÉLÈNE GRIMAUD: Sim! Eu tenho duas opiniões sobre o tema: eu adoro fazer isso, acho que é importante saber o que se passou com os contemporâneos do compositor no momento em que a obra foi escrita, o que se passou evidentemente na vida do compositor e o contexto histórico, político, etc. Porém, ao mesmo tempo, se a obra não o toca por si, a chave desse segredo – todas as informações biográficas, históricas, musicológicas – não vão verdadeiramente lhe esclarecer. No fim das contas, é algo muito pessoal entre a obra e o intérprete.

CONTINENTE: Você se refere ao Concerto No 5 de Beethoven como um animal selvagem. Interpretá-lo é como domar esse animal?

HÉLÈNE GRIMAUD: É preciso se apropriar da obra, que tem sua própria natureza, é preciso suficiente respeito, é preciso que a obra mostre seu segredo, para isso é necessário muito trabalho. Mas não podemos predeterminar o momento em que isso vai acontecer, não é algo que você diga “vou trabalhar com essa obra por dois meses e a partir da terceira semana vai estar pronta”, é muito mais misterioso que isso, por vezes se passa no último minuto, às vezes se passa muito cedo no aprendizado da obra. É preciso deixar que esse processo – biológico, por assim dizer – seja superado.

CONTINENTE: Me parece existir uma afinidade sua com a música do período romântico, aliás desde bem cedo, seu primeiro concerto foi o No 2 de Chopin e o primeiro recital a Sonata No 2 de Rachamaninov. O romantismo é uma especialidade no seu repertório?

HÉLÈNE GRIMAUD: Eu gostaria muito (risos). Eu acho que é um dos períodos artísticos mais fecundos que existiu, e com o espectro mais largo no seu desenvolvimento. O que sempre me agradou no romantismo foi o período bem inicial e o fim, o último Beethoven, as últimas sonatas, etc. E depois, os poetas, escritores, romancistas, quando eles falam do fenômeno da universalidade. Em geral quando se pensa no romantismo se pensa em algo que fala do “eu”, da subjetividade. Mas na verdade é muito mais do que isso, Racine fala de uma “intuição global”, eu acho que essa é a verdadeira essência do movimento romântico. É um tema que me intriga.

CONTINENTE: Roman Jacobson dizia “toda grande arte é romântica”.

HÉLÈNE GRIMAUD: Exatamente isso. Do mesmo modo podemos dizer que a 6o Partita de Bach é também romântica.

CONTINENTE: Ou que Noite transfigurada, de Schoenberg, é romântica.

HÉLÈNE GRIMAUD: Sem dúvida!

CONTINENTE: Além dessa afinidade de repertório, me parece que seu espírito – essa proximidade com os lobos, com a natureza – tem algo de profundamente romântico.

HÉLÈNE GRIMAUD: É verdade que a natureza é a inspiração última. Para todos os criadores isso é normal – nós intérpretes não somos bem criadores, temos um papel bem mais insignificante – mas mesmo para um intérprete a natureza é a musa. Ela também fez parte da essência do romantismo alemão, sempre esteve presente. E não é somente um conceito, é a realidade, isso para os compositores, para os poetas, para os escritores – é sempre na natureza que eles se reencontram.

CONTINENTE: Mas a interpretação tem algo de verdadeiramente criador, nós podemos falar do [maestro alemão] Carlos Kleiber…

HÉLÈNE GRIMAUD Sim, é verdade, ele transfigura as obras. É verdade também que uma obra uma vez que existe no papel é revivida na interpretação, é como uma recriação. Existe esse aspecto criador também.

CONTINENTE: O que você conhece da música brasileira de concerto? Você gosta?

HÉLÈNE GRIMAUD Sim, eu a amo muito. Eu nunca a toquei, talvez numa próxima vinda ao Brasil. É uma música muito evocativa, de cores, de coisas – é um universo! É uma música que cria algo de muito sensual também, que cria sensações de um nível mais corporal. Eu espero voltar ao Brasil.

CONTINENTE: Qual concerto para piano mais lhe dá prazer em tocar?

HÉLÈNE GRIMAUD: O primeiro de Brahms! [O entrevistador, nesse momento, canta o terceiro movimento do Concerto No 1 de Brahms e Hélène o acompanha] Especialmente o último movimento, é muito agradável – essa dimensão que é também de Bach na sua música é fantástica.

CONTINENTE: E o segundo concerto de Brahms, te agrada também?

HÉLÈNE GRIMAUD: Durante muito tempo eu não quis tocá-lo, e finalmente, quase 20 anos depois de tocar o primeiro, eu disse “está na hora de fazer o segundo”. Eu noto que Brahms tem algo de purificador: eu não sei se é o classicismo de proporções, a arquitetura da obra.

CONTINENTE: Certa ocasião eu li uma idéia muito interessante sobre Brahms: ele não sabia fazer a união entre o amor carnal e o amor platônico, e isso se reflete na sua música, especialmente na música de câmara.

HÉLÈNE GRIMAUD: É verdade, eu nunca tinha ouvido essa idéia, mas faz sentido. Talvez por isso ele não tinha sido tão ativo em nenhuma das duas, porque na verdade o amor é um só.

CONTINENTE: E qual o mais espiritual dos concertos?

HÉLÈNE GRIMAUD: Eu diria o No 4 de Beethoven!

CONTINENTE: Existe um livro muito belo de Paul Valéry, Eupalinos ou o arquiteto, em que ele diz “não há detalhes na execução”, se referindo à arquitetura. O mesmo poderia ser dito da interpretação musical?

HÉLÈNE GRIMAUD: É sempre a arquitetura que ao meu ver determina tudo. Nós podemos, aqui e ali, consagrar muita atenção aos detalhes da interpretação musical, mas pra mim o que importa é o sopro que perpassa a obra no seu todo, é o discurso, algo que porta o elemento determinante.

CONTINENTE: Ser pianista e escritora são duas formas diferentes de se expressar ou elas são fruto de uma mesma interioridade?

HÉLÈNE GRIMAUD: São duas formas diferentes. Pra mim a escrita é muito mais falível. Eu não me considero escritora. Escrevo, mas isso pra mim não é essencial para viver, a música sim. Eu acho que a música é muito mais honesta porque a linguagem é sempre mais artificial, descrever algo é sempre traí-la. É impossível descrever uma sensação através de palavras, mas na música existe algo que é muito mais direto, muito mais aberto, muito mais honesto. Mas existe também outra diferença: apesar de serem dois fortes meios de expressão, eles não são comparáveis. Naturalmente é possível ser bastante afetado pela leitura de algo, mas pra mim a música tem algo de primário, que lhe transforma materialmente, é físico, biológico.

CONTINENTE: É verdade que você é sinestésica?

HÉLÈNE GRIMAUD: Sim, mas não é sistemático, todo o tempo. Entretanto acontece com certa regularidade. Cada tonalidade musical me faz ver uma cor. O que é interessante é que pouco importa se é Rameau ou Ravel. Para mim ré menor é azul, não importa se é um compositor moderno, barroco, impressionista. É algo que se manifesta naturalmente.

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