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ENTREVISTA COM A PESQUISADORA NEIDE JALLAGEAS

Luz Instant‰nea Polaroides de Andrei Tark—vski Local : MASP Data: 16.10.2012 Foto: Aline Arruda

Luz Instant‰nea Polaroides de Andrei Tark—vski
Local : MASP
Data: 16.10.2012
Foto: Aline Arruda

Por Josias Teófilo, publicado na revista Continente de fevereiro de 2013

“A Rússia também está se redescobrindo, porque estava encoberta dela mesma”

Neide Jallageas acaba de lançar pela Editora 34 a primeira tradução para o português de uma obra do filósofo e teólogo russo Pável Floriênski, realizada em parceria com a pesquisadora Anastassia Bytsenko. A tradução de A perspectiva inversa, feita diretamente do idioma original, aparece num momento em que o mercado editorial brasileiro recebe um grande número de publicações de autores russos, não só na literatura, que tradicionalmente já constavam nos catálogos das nossas editoras, mas também no cinema, especialmente do cineasta Andrei Tarkóvski, que, em 2012, faria 80 anos. Não é coincidência o lançamento do livro de Floriênski junto à publicação do livro com as polaroides de Tarkóvski pela Cosac Naify. Sobre essa relação, a tese de doutorado de Neide Jallageas é a referência fundamental, e trata da perspectiva inversa como procedimento na construção da obra deste cineasta.

CONTINENTE: Como foi o processo de tradução com Anastassia Bytsenko?

NEIDE JALLAGEAS: O processo de tradução com Anastassia foi muito produtivo. Ela, enquanto russa, contribuiu com elementos-chave de sua cultura e é uma incansável pesquisadora, dedicadíssima. Eu, enquanto brasileira, e conhecendo contexto, história e conteúdo do texto traduzido, pude enriquecer o processo de uma forma que talvez não se repita nos próximos projetos em comum.

CONTINENTE: De onde partiu a ideia de traduzir A perspectiva inversa?

NEIDE JALLAGEAS: Partiu da necessidade de checar se o que eu havia traduzido cotejando do italiano, do espanhol e do inglês correspondia, de fato, ao texto russo. Utilizei o texto integral em minha tese de doutorado. Quando traduzia a partir dessas outras versões, notei algumas diferenças substanciais, como trechos inexistentes em uma e existentes em outras. Hoje, sei que a diferença pode ter surgido da escolha do texto original.

CONTINENTE: A que se deveram essas diferenças na original?

NEIDE JALLAGEAS: Se você tomar o texto editado pela Escola de Tartu-Moscou (Lotman e Cia), por exemplo, notará que há uma supressão. Cito isso na apresentação do livro. Essa foi a primeira edição publicada na Rússia (é de 1967, e o texto do Floriênski foi escrito em 1919…). Creio que haja diferenças em outras versões, até chegarmos na que pesquisadores mais recentes declaram ser a “final”. No que diz respeito a textos russos desse período, tudo estava “sob suspeita” e nunca temos certeza de que aquele texto é, de fato, o “final”. Com os textos de Eisenstein ocorre o mesmo.

CONTINENTE: Na apresentação, você cita que um dos netos do Floriênski diz que publicar um livro como esse era considerado um ato heroico e, mesmo assim, ele foi editado com cortes. A que se deve toda essa censura a Floriênski durante tanto tempo na União Soviética? Era o conteúdo religioso da sua obra filosófica?

NEIDE JALLAGEAS: Não creio. Sua obra não pode ser considerada apenas pelo conteúdo religioso. A perspectiva inversa, por exemplo, não aborda em nada o que pudesse ser considerado “conteúdo religioso”. Tampouco outras obras em que ele discute o espaço e o tempo na arte. Floriênski tinha muitas faces, era um sábio, um homem de vasta cultura e múltiplos conhecimentos. Sua posição profundamente humanista e seu alto nível intelectual é o que incomodava, de fato. Como incomodaria hoje também, não apenas na Rússia, mas em qualquer local do planeta. A diferença é que ele vivia na União Soviética, nesse período, quando aqueles que incomodavam eram exilados, presos ou mortos. Não podemos esquecer que o mesmo ocorreu com Meyerhold, com Mandelstam e com tantos outros que nada tinham a ver com a religião. Mesmo o ícone, sem dúvida um “objeto” religioso, é abordado por Floriênski do ponto de vista espacial, do ponto de vista da percepção e da arte, e não da religião propriamente dita.

CONTINENTE: De fato, Floriênski termina A perspectiva inversafalando de liberdade e espiritualidade.

NEIDE JALLAGEAS: Sim, bem lembrado. Nesse caso, vale pensar na religião institucional que é mais voltada para o cerceamento de liberdade e para o materialismo, considerando que para todas elas (podemos pensar da católica à evangélica, se focarmos em termos de Ocidente, apenas) é a lógica do capital que rege sua existência e o seu desenvolvimento. Daí temos Floriênski, um ser de múltiplos saberes, matemático, filósofo, geólogo, biólogo, historiador de arte, ensaísta, professor (deu aulas na mais incrível escola de arte que já existiu no mundo, que foi o Vkhutemas, por vezes equiparado à alemã Bauhaus): o que ele faz do início ao fim desse texto sobre a perspectiva inversa? Equipara a liberdade do olhar (livre da ditadura da geometria e das proporções geométricas) à liberdade do espírito (livre das imposições dogmáticas).

CONTINENTE: Essa formação múltipla de Floriênski dá a ele uma visão privilegiada do seu tema, que é a questão do espaço e do tempo, e a representação destes na artes visuais. Existe algo na filosofia da arte ocidental que se compare a esse estudo de Floriênski?

NEIDE JALLAGEAS: Eu desconheço qualquer estudo que abarque o espaço e o tempo nas artes visuais (e eu, através de minha tese de doutorado, incluí o cinema de Tarkóvski) através do ponto de vista de Floriênski. Há, sem dúvida, um estudo de grande valor, realizado por Panofsky e publicado em 1927, A perspectiva como forma simbólica, que se aproxima da abordagem de Floriênski. Mas apenas se aproxima. E, se avançarmos na leitura e estudo dos textos que Floriênski desenvolveria a partir de suas pesquisas sobre espaço e tempo nas artes para proferir as aulas no Vkhutemas, estaremos falando de algo único. Ocorre que esse conjunto de saberes dominados por Floriênski confere-lhe um lugar histórico apenas comparado a Leonardo da Vinci. Mesmo a motivação de Floriênski era outra. Temos que considerar o contexto em que ele vivia. Um russo que compreendia a pintura de ícones e as tradições da arte russa em um momento no qual os bolcheviques almejavam destruir tudo o que fora feito nesse sentido até então! Floriênski não apenas teorizava ou filosofava, ele defendia um olhar, uma postura na e de vida, um direito de ser e estar no mundo, gravado em séculos e séculos de arte russa. Daí o sentido de liberdade de vida estar tão intimamente ligado à liberdade na arte, à liberdade espiritual, como também defendeu Andrei Tarkóvski.

CONTINENTE: Num outro ensaio de Floriêski, sobre o Mosteiro da Trindade, ainda não traduzido para o português, ele atribui um papel grandioso para a cultura russa, que é a de herdeira legítima da Grécia antiga, tendo Bizâncio como intermediário. Ele contrapõe essa herança legítima da cultura russa, caracterizada pela harmonia helenística, à herança ilegítima do renascimento italiano, caracterizado pela imitação exterior. Como o uso e o aperfeiçoamento da perspectiva linear no Renascimento entra nesse contexto?

NEIDE JALLAGEAS: Bem, ambas as perspectivas (linear e inversa) são artificiais, para começar. Porém, a conclusão a que chego é que Floriênski não defende uma contraposição entre as perspectivas, pura e simplesmente. Ele recorre aos grandes mestres renascentistas para defender a violação da perspectiva linear, ou melhor, a associação (no meu entendimento) de várias perspectivas. Tanto que ele cita a subversão às regras da perspectiva linear que Michelangelo realiza, por exemplo, quando surge a necessidade de representar a “ordem das coisas” e não a “ordem geométrica das coisas” (essas expressões são minhas). APietá seria um grande exemplo dessa “ordem”. E trata-se de uma escultura tridimensional, portanto, e não de uma pintura, na superfície, bidimensional. Na Pietá, de Michelangelo, o Cristo, um homem que se pressupõe mais forte e maior que sua mãe, quando morto, no colo dela, é de uma fragilidade aterradora. Se considerarmos as leis geométricas, o seu corpo é proporcionalmente menor que o dela. Maria, em sua dor, é grandiosa, é magnífica, é imensa. Essa inversão da ordem, de representar o mundo segundo sua proporção geométrica, cai por terra, se o objetivo do artista é alcançar a camada interna do que está sendo representado. Maria, nesse momento, nesse caso é maior, porque é sua resignação, sua dor, sua grandiosidade o que deve falar. E é assim que Michelangelo a representa. Por isso, nesse momento, o artista viola as regras da proporção. A harmonia à qual Floriênski se refere não é de ordem puramente estética. E aí ele demonstra que o olhar do artista do medievo não era ingênuo, mas ao contrário, era extremamente perspicaz e traçava um mundo onde o que podia ser percebido não eram apenas formas, mas o que se manifestava através dessas formas. Trata-se de uma visão do mundo guiada pela percepção de um mundo vivo, em que as camadas do espírito desse mundo é que afloram e não o seu suporte material. Esse, o suporte material, se presta apenas para fazer falar um mundo em suas camadas mais profundas.

CONTINENTE: Na sua tese de doutorado, o que a levou a estudar Floriênski para entender a construção do cinema de Tarkóvski?

NEIDE JALLAGEAS: Eu cheguei a Floriênski através de Tarkóvski e não o contrário. Ocorre que eu havia observado que alguns procedimentos utilizados por Tarkóvski em seu cinema se aproximavam daqueles empregados por um pintor de ícones do período medieval. Mas era mais intuição do que “ciência”. Explorei várias caminhos teóricos, vários autores, todos já conhecidos e bastante utilizados no campo do cinema, Deleuze, Jameson, mesmo Zizek. E, para mim, nenhum dos autores e textos que eu utilizava faziam sentido, quando se tratava de Tarkóvski enquanto pintor de ícones… Eu dormia e acordava com esse problema, pois não tinha repertório do campo russo para fazer a aproximação. Posso dizer que foi a persistência em pesquisar que me levou a Floriênski, mas na prática houve dois eventos fundamentais que definiram meu percurso. O primeiro foi o lançamento das “caixas” com os DVDs de Tarkóvski, principalmente com documentários preciosíssimos sobre o seu cinema. O segundo (quase concomitante) foi a incrível mostra que ocorreu na OCA: 500 Anos de Arte Russa. Foi magnífico deparar-me com o contrarrelevo de Tátlin no qual o espaço é explorado de forma tão excêntrica (literalmente), e que fui descobrir da mesma forma que os ícones exploravam… Foi também Kandinsky, outro grande mestre russo da pintura que me conduziu aos ícones e, por vias indiretas, a Floriênski. O ícone, enfim, representa o cosmos. Maliévitch entendia isso com seu quadrado negro. O cinema de Tarkóvski também. E o mesmo Tarkóvski fez um filme sobre Rublióv, outro grande mestre, e daí, em seu livro Esculpir o tempo, Tarkóvski cita Floriênski. Quis saber o que havia movido os maiores artistas do século 20 e que estava ancorado na arte medieval. Fui atrás.

CONTINENTE: E a conclusão a que chegou é que Tarkóvski usa a perspectiva inversa como procedimento no cinema?

NEIDE JALLAGEAS: Sim, grosso modo, pode-se dizer que sim, essa é a conclusão de minha tese, embora não só. Apenas a utilização da perspectiva inversa como procedimento no seu cinema seria impossível (e discuto isso também), pois a própria câmera geradora de imagens é um objeto concebido, codificado e pronto para gerar imagens segundo a perspectiva linear. O mais incrível é a violação da perspectiva linear, o que ela representa. E como ele associa as perspectivas. E aí é que Tarkóvski, um russo, sagaz, sensibilíssimo e conhecedor extremo das tradições artísticas e culturais de seu país e ainda da cultura universal, consegue atravessar para o outro lado. E, note-se, Tarkóvski pertence a uma geração que poderia ser considerada aquela do Homus Soviéticus no sentido mais estrito do termo: nasceu em 1932, ano da implantação do realismo socialista e viveu sua infância, adolescência e juventude sob a cartilha de Stalin. Melhor exemplo de violação de um sistema não pode haver!

CONTINENTE: É possível ter uma compreensão teórica da obra de Tarkóvski sem conhecer a cultura e a religião (“duas faces de uma mesma moeda”, como ele diz nos seus Diários) em que ele está inserido? No caso, a tradição iconográfica, a literatura de Tolstoi e Doistoiévski, a filosofia de Floriênski etc.

NEIDE JALLAGEAS: Creio que o próprio conceito de teoria nos propicie mais de uma compreensão da obra de Tarkóvski. Isso, penso, porque houve essa generosidade por parte do artista e é essa generosidade e esse mergulho nas camadas mais profundas da vida, esse olhar amplo e catalisador de múltiplos saberes e culturas, que fazem de Tarkóvski, primeiro não apenas um diretor de cinema, mas um artista e, segundo, um grande, um mestre. E sempre que leio outros pesquisadores e teóricos que escrevem sobre o trabalho de Tarkóvski, a partir de outros pontos de vista, ainda que sem conhecimento da cultura, da religião ou mesmo da história russa, observo que alguns são capazes de, intuitivamente, alcançar maravilhas com suas visões. Mas é evidente que a análise de uma obra, do ponto de vista teórico, sempre ganhará com o conhecimento da cultura e do contexto da criação dessa obra, exceto se, para esses teóricos, a obra de Tarkóvski se preste à ilustração de seus (pré)conceitos, pura e simplesmente. Eu mesma, que me achava até que com um bom conhecimento de determinado contexto da obra de Tarkóvski, quando cheguei em Moscou, no início desse ano, e tive a oportunidade de participar de um evento internacional que reuniu os melhores pesquisadores russos sobre o seu cinema, com a presença da própria irmã do cineasta (Marina Tarkóvski, que organizou o evento) e pude ter contato com documentos históricos sobre a vida e obra de Tarkóvski e visitar os locais por onde ele andava,viveu e trabalhou, redimensionei totalmente a minha visão.

CONTINENTE: Ao mesmo tempo em que a Editora 34 está lançando A perspectiva inversa, a Mostra de São Paulohomenageou Tarkóvski, expondo suas polaroides e exibindo todos os seus filmes, a editora É realizações lançou os Diários de Tarkóvskie está lançando seus roteiros. Isso tudo acontece junto a uma avalanche de traduções diretamente do russo, especialmente de literatura. Nós estamos (re)descobrindo a Rússia?

NEIDE JALLAGEAS: Penso que é uma oportunidade de termos uma visão menos “linear” sobre a Rússia, ou uma oportunidade para conhecermos melhor esse diretor, Tarkóvski, considerado por muitos hermético, enigmático. O fato de a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ter homenageado Tarkóvski foi uma iniciativa incrível. Primeiro porque não foi uma homenagem como a realizada pela própria Mostra a outros homenageados, como ao ucraniano Losnitza, este ano, ou como o soviético-armênio Paradjanov, no ano passado. Este ano, Tarkóvski completaria 80 anos (ele morreu muito jovem, aos 54 anos) e essa efeméride deveria ser comemorada com toda a pompa e circunstância em Cannes, em Veneza, onde,enquanto vivo, Tarkóvski foi reverenciado. Mas não foi o que ocorreu. Moscou e São Paulo foram as duas grandes sedes dessas comemorações. Eu tive a oportunidade, como falei, de participar das significativas celebrações de seus 80 anos em Moscou,que foi a cidade onde ele viveu a maior parte de sua vida (embora não tenha nascido lá, como incorretamente consta da orelha de um dos livros recém-lançados, que você citou, o roteiro de O sacrifício). E, exceto em Moscou, apenas São Paulo, através da Mostra, realizou uma homenagem proporcional à estatura do homenageado. Segundo, porque a Mostra trouxe aspolaroides, totalmente desconhecidas do público cinéfilo e, ainda, lançou em parceria com a Cosac Naif um livro primoroso, registro incrível desse evento, e com impressão belíssima dessas polaroides. Algo que apenas existe em alguns poucos países da Europa. Tudo isso amplia o conhecimento de um cinema até então apenas admirado, e um cinema de um país com uma história bastante complexa, cujos rumos repercutem, até hoje, nos rumos do planeta. Quando realizei o doutorado, nenhuma dessas publicações existia e sofri indo atrás de uma bibliografia totalmente inexistente no Brasil. Ainda há pouca interlocução, mas esta está aumentando, dia a dia. O amor a esse cinema e a minha curiosidade de pesquisadora me moveram, como deve ser o que move muitos outros pesquisadores, inclusive da literatura russa. Ou seja, para além de um fenômeno sujeito aos sabores da moda, penso que é uma onda que beneficia aqueles que mergulham no entendimento da arte e da cultura russa. E essa onda não ocorre apenas aqui. A Rússia também está se redescobrindo, porque estava encoberta dela mesma.

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