Textos

ARQUEOLOGIA DA PSIQUE ATRAVÉS DA ARTE

Restauração digital possibilita novo acesso à trilogia Imagens do inconsciente, de Leo Hirszman, que registra o trabalho realizado pela psiquiatra Nise da Silveira

TEXTO Josias Teófilo

No cinema documental brasileiro uma obra salta aos olhos pela estranheza e profundidade da abordagem. É a trilogia Imagens do inconsciente, de Leon Hirszman, feita entre 1983 e 1986, que foi restaurada digitalmente e será relançada em DVD e blu-ray pela Videofilmes.

Hirszman teve no roteiro da médica psiquiatra Nise da Silveira – introdutora do pensamento junguiano no Brasil, aconselhada pelo próprio Jung na criação do método terapêutico que estimula os doentes mentais a pintar e a esculpir – material de onde ela produziu análises utilizando a mitologia e a história da arte como instrumental para penetrar no estado psíquico dos “doentes”. Aliás, o mérito particular de Nise da Silveira nesse trabalho foi o de deslocar a problemática da loucura do campo da psicopatologia médica para o campo da cultura, como escreveu João Frayze-Pereira.

Não foi essa, entretanto, sua única inovação no Setor de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro – transformado por ela em Museu Imagens do Inconsciente, que funciona até hoje. O regime de portas abertas, a participação que ela atribuía aos animais como co-terapeutas, gatos e cachorros especialmente, tornaram seu trabalho reconhecido até pelo mestre Carl Gustav Jung.

Nise, alagoana nascida em Maceió em 1905, se destacou no meio da psiquiatria, primeiro, por ser mulher – se diz que foi a única mulher da faculdade de Medicina em que estudou –, também, pela adesão às ideias de Jung no ambiente dominado pela escola freudiana. Mas, sobretudo, pelo diálogo que estabeleceu entre psicanálise, arte, crítica de arte e filosofia – pelas  obras de Antonin Artaud, Gaston Bachelard, Vassili Kandinski, do brasileiro Mário Pedrosa e do filósofo Baruch Espinoza.

Muitos anos antes do Museu Imagens do Inconsciente, Nise da Silveira foi citada num importante livro da literatura brasileira, Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. É que eles se encontraram de fato na prisão, levados pela polícia de Getúlio Vargas. No livro, Graciliano Ramos descreve de forma interessantíssima esse encontro: “Numa passada larga, atingi o vão da janela: agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito por que me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. (…) Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: – Nise da Silveira. Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço.”

Essa pessoinha, muitos anos depois, interessou profundamente a Leon Hirszman, que insistiu durante anos para que Nise aceitasse trabalhar num documentário baseado no seu trabalho – não foi fácil persuadi-la. Ora, Hirszman tinha filmado São Bernardo – um dos grandes filmes do cinema nacional, com o belíssimo monólogo interpretado por Isabel Ribeiro – baseado na obra de Graciliano Ramos. Em 1981, recebeu das mãos de Liv Ullmann o Leão de Ouro em Veneza pelo longa-metragem Eles não usam black-tie – onde foi aplaudido de pé pela plateia.

O resultado da colaboração entre Nise da Silveira e Leon Hirszman foi uma trilogia de documentários absolutamente original. Original não pela complexidade da linguagem cinematográfica, mas exatamente o contrário: pelo uso de elementos mínimos, narração em voz off,  imagens dos artistas/pacientes pintando ou esculpindo, e imagens das suas obras. Com esses três elementos principais, o espectador faz uma viagem pelo mundo psíquico e a vida interior dos personagens – uma viagem instigante e dramática, tendo como base as imagens artísticas produzidas por eles no museu.

Os filmes enfocam três pacientes/artistas do hospital/Museu Imagens do Inconsciente: Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis. O primeiro, Em busca do espaço cotidiano, trata de Fernando Diniz, autor de obras plásticas que buscam restabelecer o espaço perdido do lar e um amor irrealizado da infância. Filho de uma empregada doméstica baiana, ele destacou-se na escola, sempre com notas altas, mas tinha um amor não correspondido pela filha da dona da casa onde sua mãe trabalhou. Quando soube do casamento de sua amada, passou a vagar pelas ruas, descuidou-se de sua higiene pessoal e, num único gesto de rebeldia, tomou banho nu no mar em Copacabana. Foi preso e levado a um hospital psiquiátrico, onde sofreu todos os agressivos tratamentos em que eram submetidos os doentes mentais àquela época, até poder expressar-se através da pintura e da escultura.

Destacou-se como verdadeiro artista: as obras de Fernando Diniz logo chamaram atenção pela complexidade e pelo apuro, chegando a ser expostas em galerias de arte. Nise interpreta as imagens à luz das forças autocurativas da psique que tentam organizar o caos emergido do inconsciente. Em sua obras, o geometrismo expressa a necessidade de reorganização da psique, o naturalismo, uma tentativa de reorganização do seu ego. Ele chega a pintar as casas onde morou com a mãe com um elemento importante, o piano, e – no ápice da sua fase naturalista – se coloca tocando o piano. Sobre essa imagem, Mário Pedrosa escreveu: “O menino pobre e rejeitado de outrora senta-se ao piano e dedilha os acordes triunfais da arte sobre um velho sonho desfeito e uma realidade ingrata, pobre e grande Fernando!”.

O segundo filme, No reino das mães, trata de Adelina Gomes, cuja expressão plástica revela a incapacidade de sair do espaço materno. Menina tímida do interior do estado do Rio, aos 18 anos, apaixonou-se por um homem que não foi aceito pela sua mãe. Depois disso, retraiu-se cada vez mais até, num arroubo de fúria, estrangular a gata de sua casa. Em seguida, foi internada. Nise da Silveira localiza uma tema mítico recorrente nas pinturas de Adelina: o da ninfa Dafne. Segundo a tradição, o deus Apolo apaixonou-se por Dafne e, apesar das suas esquivas, a persegue. Ela se refugia na mãe, a terra, que a metamorfoseia em vegetal. O mito de Dafne representa o arquétipo da condição feminina de uma identificação tão profunda com a mãe que seus próprios instintos não se desenvolvem. Foi o que aconteceu a Adelina.

Conhecia ela o mito de Dafne, que tão bem representa sua condição, para tê-lo retratado tantas vezes, pintando mulheres-plantas, mulheres-flores, mulheres em fuga? Muito pouco provável, pois Adelina só tinha o curso primário e alguma formação manual. Para entender esse fenômeno, é preciso entender dois conceitos de Jung muito caros a Nise da Silveira: inconsciente coletivo e arquétipo. O primeiro, aliás, foi um dos motivos de divergência com Freud, ele não admitia a existência de um inconsciente interpessoal. As pesquisas de Jung demonstraram a existência de tendências herdadas, chamadas de arquétipos, acessíveis a qualquer ser humano e universais – o que explica as semelhanças entre as pinturas de Adelina, sua condição psicológica, e um mito tão antigo da humanidade.

O terceiro, A barca do sol, o mais luminoso da trilogia, é sobre Carlos Pertuis, homem religioso, de expressão verbal quase nula, que Nise compara, pela simplicidade e pureza espiritual, a São Francisco de Assis. Nise da Silveira conta assim a história de Carlos: “Há vários anos, vinha sendo dilacerado por conflitos pessoais. Esses conflitos sugavam a energia do seu ego que ia enfraquecendo e já começava a vacilar. Certa manhã, raios de sol incidiram sobre o pequeno espelho do seu quarto. Brilho extraordinário que o deslumbrou e surgiu diante dele uma visão cósmica: o ‘Planetário de Deus’, segundo suas palavras. Gritou, chamou a família, queria que todos vissem aquela imagem maravilhosa que ele estava vendo. Foi internado no mesmo dia…”. Para analisar as pinturas de Carlos Pertuis, Nise da Silveira utilizou um conceito retirado igualmente de Freud e de Jung: arqueologia da psique.

Ela compara o material arquetípico das obras plásticas de Carlos Pertuis – em que aparecem imagens claramente presentes em épocas distantes da humanidade, como na religião mitraica e na mitologia grega, junto a símbolos cristãos provenientes da sua memória – com a descoberta, sob a Catedral de Colônia, do mosaico representando o deus pagão do vinho: “Se Dionysus surgiu das escavações ao lado da Catedral de Colônia em mosaicos antigos intactos, como um achado arqueológico aparece vivo no hospital de Engenho de Dentro, emergindo do mundo subterrâneo psíquico, mostrando assim que é de fato um poder eterno. A história gravada em pedra do alto das torres da Catedral de Colônia ao mosaico de Dyonisus equivale a um corte profundo na psique do homem. Dois mil anos de cristianismo representam apenas a superfície”.

Os pacientes do Museu conseguiam acessar essas imagens arquetípicas e representá-las com impressionante clareza – de modo que a interpretação das pinturas e esculturas por eles produzidas revelam experiências humanas perenes e universais. A lente de Leon Hirszman coloca o espectador em contato com a alma humana em sua expressão mais pura, através das análises de Nise da Silveira sobre os pacientes/artistas que ela conhecia tão bem.

Curiosamente, a morte de Nise da Silveira aconteceu somente depois da morte dos seus pacientes/artistas, no dia 30 de outubro de 1999. A ligação entre ela e Leon Hirszman parece ter sido bastante forte, pois a última imagem que este gravou antes da sua morte, em 1987, foi de um depoimento da Nise da Silveira, como mostra o documentário feito por Eduardo Escorel

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